«Depois pegou da clavina pela guarda-matta, e poz-se a fazer pontarias vagamente, passeando um olho, com o outro fechado, desde a mira ao ponto.

«A mulher fôra sentar-se no sobrado, á beira da enxerga de tres filhos a chorar; o mais novo esperneava,{35} dava vagidos na cama a procural-a. O Alma-negra fôra dentro beber uns tragos de aguardente, voltou enroupado n'um capote de militar, despojo das batalhas da Maria da Fonte.—Ora agora—disse elle—ouvistes? porta da cosinha e a cancella da horta aberta, porque eu venho pelo lado do pinhal.

«—Vae com Nossa Senhora—disse a mulher—e poz-se de joelhos a uma estampa do Bom Jesus, a rezar muitos Padre-nossos, a fio.

«Era uma noite de fevereiro, de nevoa cerrada, um céo de carvão pulverisado em brumas molhadas, sem clareira onde lucilasse uma estrella. Não se agitava um galho de arvore nua movido pelo ar, nem ondulava uma erva. Era a serenidade negra e immota das catacumbas. Ás vezes rugia nas folhas ensopadas de nebrina no chão esponjoso das carvalheiras a fuga rapida das hardas, dos toirões e das raposas que se avisinhavam do povoado a fariscarem as capoeiras. O Joaquim Melro estremecia e punha o dedo no gatilho. O restolhar d'um gato bravo, o pio da coruja no campanario distante, punham arrepios de medo na espinha d'aquelle homem que ia matar outro—chamal-o á janella e varal-o á traição com uma bala.—Era o traçado.

«—Que raio de escuro!—dizia, esbarrando nos espinheiros perfurantes.{36}

«Em noites assim, o universo seria o immenso vacuo precedente ao Fiat genesiaco, se os viandantes não esbarrassem com as arvores e não escorregassem nos silvêdos das ribanceiras. O noctivago sente na sua individualidade, nos seus callos e no seu nariz, a doce impressão pantheista das arvores e dos calháos. Que este globo está muito bem feito. Os transgressores do descanço que Deus estatuiu nas horas tenebrosas, os scelerados das aldeias que larapeam o presunto do visinho, que fisgam a moça incauta ou empunham o trabuco homicida, se não temem encontrar as patrulhas civicas das grandes municipalidades, encontram os troncos hostilmente nodosos das arvores que são as patrulhas de Deus. Alguns, porém, protegidos pelo Mephisto a quem venderam a alma pelo preço da consciencia eleitoral, ou mais barata, chegam incolumes ao delicto, passando illesos como o lobo e o javali por entre os troncos das carvalheiras esmoitadas, hirtas, com os galhos a esbracejarem retorcidos n'uma agonia patibular.

«O Melro, como o porco montez e o lobo cerval, embrenhára-se por pinhaes e carvalheiras; ás vezes, parava a orientar-se pelo cucuritar dos gallos tresnoitados e latir dos cães. Ao fundo das bouças ladeirentas, rugia o rio Péle nos açudes das azenhas e nas guardas dos pontilhões. Lamellas era da parte d'além. Mas o rio, de monte a{37} monte, rugia intransitavel nas pequenas pontes. Foi á de Landim, uma aldeia engravatada, onde ainda se avistavam clarões de luz nas vidraças das familias distinctas que jogavam a bisca em ricos saráos do faubourg Saint-Honoré, com uns deboches sardanapalescos de sueca a feijões.

«Havia tambem um rumorejo de vozes que altercavam na taverna do Chasco. Tinia dinheiro lá dentro. Jogava-se o monte.

«O Melro cuidou ouvir proferir o nome do Zeferino. Abeirou-se, pé ante pé, do postigo da taverna, e convenceu-se de que estava ali o pedreiro. Era elle quem reclamava um quartinho que pozera de porta, e o banqueiro recolhêra com as paradas que estavam dentro, quando tirou a contraria de cara.

«—Que não admittia ladroeiras!