«E o banqueiro desfeiteado observava-lhe que nada de chalaças a respeito de ladroeiras; que todos os que estavam d'aquella porta para dentro eram cavalheiros. O Zeferino replicava que não queria saber de cavalheiros; que queria o seu quartinho ou que se acabava ali o mundo. Que quem queria roubar que fosse para a Terra Negra.
«A allusão era muito certeira e inconveniente. Estavam na roda dos cavalheiros alguns veteranos da antiga quadrilha do Faisca, na Terra Negra, muito desfalcada pelo degredo e pela forca.{38} Travou-se a lucta a sôco e páo; havia lampejos de navalhas que davam estalos nas mollas; o Tagarro de Monte Cordova tinha feito afocinhar o banqueiro sobre os dois galhos do baralho com um murro herculeo phenomenal. O taberneiro abriu a porta para escoar o turbilhão. Elles sahiram de roldão; e, quando entestaram com a treva exterior, quedaram-se cegos como n'um antro de caverna. Um, porém, dos que estavam, não sahiu; encostára-se ao mostrador com as mãos no baixo ventre, gritando que o mataram; e, vergando sobre os joelhos, n'um escabujar angustioso, cahiu de bruços, quando o taberneiro e o Tagarro o seguravam pelos sovacos. Era o Zeferino.
«Quando, á meia noite, o Alma-negra entrava em casa pela porta do quintal, encontrou a mulher ainda de joelhos diante da estampa do Bom Jesus do Monte. Ao lado d'ella estavam duas filhas a rezar tambem, a tiritar, embrulhadas em uma manta esburacada, aquecendo as mãos com o bafo.
«O Melro mandou deitar as filhas, e foi á loja contar á mulher, livida e tremula, como o Zeferino morreu sem elle pôr para isso prego nem estopa. Ella poz as mãos com transporte e disse que fôra milagre do Bom Jesus; que estivera trez horas de joelhos diante da sua divina imagem. O marido{39} objectava contra o milagre—que o compadre não lhe dava a casa, visto que não fôra elle quem vindimara o Zeferino; e a mulher—que levasse o demo a casa; que elles tinham vivido até então na choupana alugada e que o Bom Jesus os havia de ajudar.
«Ao outro dia, o Joaquim Melro convenceu-se do milagre, quando o compadre, depois de lhe ouvir contar a morte do pedreiro, lhe disse:
«—Emfim, você ganha a casa, compadre, porque matava Zéférino, se os outros não matam elle, heim?»{40}
[VI]
É de Lisboa o grande romancista. Nasceu a 16 de março de 1826. Orphão aos dez annos de edade, foi transportado a Villa Real (Trás os Montes) d'onde passou ao Porto. Foi n'esta ultima cidade que elle se affirmou litterariamente, e no Porto ou a breve distancia tem vivido, salvo alguma ausencia limitadissima, a sua vida de combates e de triumphos.
Hoje vive—ha uns vinte annos—na freguezia de S. Miguel de Seide, concelho de Villa Nova de Famalicão.
S. Miguel de Seide vincula-se á historia litteraria portugueza do seculo XIX, por Camillo Castello Branco, como Valle de Lobos por Alexandre Herculano. Ermos sagrados e veneraveis!