Eu pasmo—hoje—quando um espirito culto e de serios precedentes atira a luva, de envolta com a injuria, ao invencivel athleta de mil combates. Comprehendo as aggressões de uns gatunos que pedem a um puxão d'orelhas a celebridade, uns pelitrapos de botiquim aceites na Associação dos escriptores portuguezes (sic): mas, que uma entidade pensante, no usufructo da imputação desça á camaradagem com a suja horda—é o que não se póde comprehender sem derivar, para o triste caso, da allucinação partidaria, tanto monta—do mais triste facciosismo.
Elle, o flagellador da Corja, não é apenas o erudito e paciente investigador da nossa historia, o derradeiro e mais illustre mestre da lingua portugueza, «o gigante que fixou em livros immorredouros toda a comedia portugueza contemporanea» (palavras do snr. A. da Conceição no seu primeiro artigo sobre A Corja); mal vae aos tristes aggressores que o consideram immobilisado nos estudos de ha vinte annos:{14} com a autoridade de quem assim levianamente creu e mais tarde corrigiu os seus erros sobre Camillo e sobre outros, eu poderia asseverar que o grande escriptor acompanha no seu retiro da aldêa todo o movimento litterario e scientifico do periodo contemporaneo,—poderia asseveral-o, se não visse bater em retirada, após tres dias de lucta, a aggressão moderna ao supposto immobilisado... Mas não será um crime egual ao da aggressão esta apparencia de defeza?
De homens como Camillo é uso dizer-se: «Está ainda mui perto de nós para a justiça; o futuro ha de fazer-lh'a». Quer dizer:—Estabeleçamos como norma o insulto aos mestres, durante a vida; mais tarde, depois da sua morte, nos servirão seus nomes para injuriar os vivos! Oh! espiritos sublimados dos homens d'hoje, reformadores do existente, destruidores da torpeza legalisada! se não applicasseis todo o marmore disponivel á construcção das vossas proprias estatuas antecipadas, se não empregasseis o vosso esforço em tentativas de demolição das glorias justificadas, se não desseis guarida aos insignificantes repletos de odio e aos parlapatões repletos de charlatanismo, se abrigasseis o respeito ao genio aureolado pelos cabellos brancos e pelo saber,—não dariamos o espectaculo permanente de contendas deploraveis entre os apregoados voluntarios do bom senso e da justiça.{15}
[II]
O Movimento do Romantismo em Portugal affirma-se n'uma corrente de banalidades que dão em litteratura a nota da suprema inepcia. Mas todos os crimes e todas as faltas, melhor todas as excrescencias d'essa evolução de sentimentos se resgatam e afundam no esquecimento misericordioso, se acertamos em ver a toda a luz, a obra colossal do homem de genio que entre nós consagrou o romantismo e que o mantem, quarenta annos volvidos, nos dominios do romance portuguez, em plena força indestructivel e em plena gloria incontestavel.
Vieram, com grandes esperanças, algumas tentativas de implantação de novas formulas e de processos novos. Não escaceou o talento, menos ainda a observação, com todo o brilhantismo expositor. Mas faltou a paixão—desculpe-se a velha definição do facto eterno e insubstituivel. Foi pela paixão que triumpharam os raros e grandes triumphadores da geração d'hontem. Surgem os excessos de analyse, as subtilezas, as minudencias, a cathedra para os sentimentos, mas a inferioridade do effeito é manifesta. O successo relativo do romance modernissimo está nas bellezas do descriptivo e nos pormenores liberrimos até aos dominios da pornographia. Mas é{16} raro que dos detalhes saia o grande traço emocional, a forte scena dramatica que convulsiona, a grande synthese psychologica que se impõe e que illumina como uma revelação.
Um lucido e poderoso espirito que nós perdemos e choramos e cujo nome deixaremos vinculado a este singelo estudo—o poeta Cesario Verde—apresentava-nos um dia diversas definições muito rapidas e muito seguras de varios escriptores portuguezes. Tendo de referir-se a Camillo Castello Branco, apresentou a seguinte definição—«é o mais litterato de todos»—completo: é no terreno do estudo severo a erudição benedictina apoiada no bom-senso profundo; é o sacerdos magnus nos dominios da lingua portugueza; é o humorista Sterne combinado com o humorista Henri Heine, e das amarguras d'este teem muito as suas amarguras. A nota plangente que faz estremecer e sossobrar os espiritos na desolação ou que os redime pelas lagrimas, fere-a o grande escriptor com a sinceridade do momento—que é toda a força da paixão. Em hora de zombaria serena assimila os processos novos e desmascara-lhes a impotencia e a inferioridade; logo, corrigindo a ironia, dá-nos em duas paginas que adiante serão transcriptas a scena mais artisticamente executada da galeria do romance portuguez.
Teremos ensejo de fallar d'elle como polemista. Vejamos no entanto a philosophia do seu riso.{17}
[III][[1]]
«Não conto commigo para destramente me desempenhar da empreza litteraria em que se faz mister mais mocidade de coração que lettras bem ajuizadas.