Eu insisto ainda agora na expiação que me rehabilita: se ha quem muito deva em lição, mais que muito salutar, ao mestre de todos nós, sou eu, que lhe aggredi o trabalho colossal, sem resvalar ao insulto ignobil ao homem que mais tarde me foi mestre e ao lar que me recebeu amigo...
Pude assistir, hospede, n'esse lar, á formação do ultimo livro de Camillo. Pede-me a consciencia, porventura illudida, um juizo favoravel á consciencia dos insultadores do livro e do seu auctor;—eu creio que os sentimentos de simples equidade, avocados pela simplicissima vergonha, dariam rebate á confissão do erro no espirito d'esses transviados, se n'esses espiritos pudesse transluzir um clarão tenuissimo{10} d'aquelle viver de sacras amarguras que tem o lenitivo no trabalho, ou que desabafa em palavras de amigavel incitamento quando a provocação dos insensatos o não distrahe para as violencias do correctivo.
Afigure-se ao leitor de boa fé e de claro entendimento que a sorte, raro propicia a entendimentos honrados, o levou em hora de paz ao remanso de S. Miguel de Seide. É hospede na hospitaleira morada. Alta manhã, subiu ao gabinete de trabalho do mestre e achou-o solitario. Sahiu da officina para o lugar do descanço: sobre o leito, presa dos soffrimentos physicos de cada hora, que os soffrimentos moraes vingam suffocar a espaços, o grande homem descança no trabalho. Não ha que hesitar na interrupção: entrai: lá está o sorriso socratico do mestre a receber-vos, carinhoso. Ahi tendes a féra que se propõem acossar uns taes que mal espulgam a insignificancia nas horas ferozes em que o pulguedo da vaidade parva lhes dá rebate ás furias: ahi tendes o homem feroz que esses pregoeiros de especiarias podres apontam como o algoz de suas industrias d'elles. Não hesiteis na expansão do vosso crêr: elle—o verdugo—tem indulgencia e conselho para todas as ignorancias; tem o silencio de favor para as vaidades que o não insultam; o que elle não tem é a resignação criminosa da bondade exaggerada, quando os pygmeus chafurdam no pantano fetidissimo da injuria soez, no intuito de lhe salpicarem a formidavel sombra; o que elle não tem é a indulgencia da{11} exaggerada caridade quando suspeita que o aggressor ingenuo encobre o vulto de villão cobarde que se agacha na sombra, menos escura que a alma do miseravel.
Então, n'esses momentos em que os profanos imaginam, á luz vermelha da represalia do mestre, uma irritação feroz, o grande homem converte o insultador em titere, prende-lhe o cordel; puxa: as cambalhotas succedem-se; o publico ri perdidamente, ou sente fremitos de espanto: o insolente morde a terra, e, quando o auditorio espera a punhalada final vibrada pelo gigante, o gigante applica no esmurraçado nariz do iconoclasta um misericordioso piparote, e ri.
Riso que seria crudelissimo se a bondade da suprema força o não temperasse...
Ás vezes, quando o feroz inverno da aldêa me fornecia, benevolo, o pretexto para conservar-me á beira de Camillo, o mestre concedia-me a leitura do seu trabalho, e eu lia distrahido: é que eu pensava, em quanto lia, nos esforços de uns miseros parturientes que atrôam os ares com os seus gemidos, quando cerradas noites dolorosas de meditação lhes arrancam dez paginas de original, morto ao nascer,—uns reformadores sarrafaçaes que põem a tratos de emendas os compositores martyres, quando não preferem—no furor de producção—pôr a tratos a critica misericordiosa que lhes corrige, em que peze a safanões ingratos, as demasias de desaforados absurdos.{12} Confrontava, e confronto a espontaneidade uberrima e a ardentissima e vigorosa seiva d'aquelle espirito de luz com a escuridade interior dos eunucos que o doestam lá da acolheita das suas tropelias. É assim que o mister do critico se distrahe, a espaços, avocado pelo dever de amargas retaliações.
A Corja, elaborada ao correr da penna pelo mestre, é um novo documento para o processo da mixordia litteraria. Demonstra-se, uma vez ainda, que o esplendor da obra nova é uma illusão d'optica, fascinadora para o gentio zanaga, se os arrebiques não occultam o oiro de lei da concepção genial, ou da observação profunda, de par com os conhecimentos da lingua em que se escreve.
E raro occultam esses thesouros.
O que por ahi vemos, é a saudação aos arrebiques; e, justiça inteira, se á pobre chronica jornalistica não é vedado o ingresso nas sociedades de geographos e de escriptores, a crassissima ignorancia veda-lhe o uso da palavra em assumptos que demandam estudo. Que ha a esperar em affirmações de tal lote por parte d'esses eternos infantes prodigiosos que trocam por bilhetes de theatro a sua triste collaboração nas gazetas e os seus direitos de litterato no Martinho ou na associação risonha?
Eu não posso reproduzir-me no aquilatar da moderna escóla (?), dos modernos artistas, dos modernissimos abortos e das deturpações que o trabalho de boa fé tem obtido dos censores inconscientes e dos{13} facciosos instrumentos involuntarios de uns tetrarchas burlescos da evolução deturpadissima. Mas que primores de sanissima linguagem, para lição crudelissima dos abortos e para nossa lição solicitada, não offerece o novo livro de Camillo! Depois, como a espaços, transparece, no decorrer da epopêa de miserias, o moralista mordacissimo, e como n'essa mordacidade transluz um raio de suprema piedade que sóem experimentar e conceder os espiritos de lei, firmados na base dupla do estudo e da experiencia dolorosa!