Não se tinha enganado D. João, suppondo que a pobre creança chegaria gelada.
Angelo (era assim que se chamava o novo caixeiro dos snrs. Quijano e Sobrinho) estava a tiritar com frio; tinha as mãos e a cara lividas e os seus olhos indicavam que, na noite antecedente, em vez de se terem fechado para o somno, se tinham aberto para o pranto. O pobre rapazinho parou á porta do escriptorio, com o chapéu na mão, de cabeça baixa, e mal pôde articular um cumprimento.
—Ora aqui o tem, disse Chomin, depois das saudações do estylo. Desde que saímos da aldeia, ainda não cessou de chorar com saudades das suas vaccas e das suas cabras.
—Pobre pequeno! exclamou D. João, afagando Angelo.
—Deixe lá, atalhou o almocreve, que o pão trigo de Madrid faz esquecer de prompto a brôa de Biscaya. Bem diz o provérbio que «de Madrid só para o céo».
D. João acercou-se de Angelo, e disse-lhe, correndo-lhe a mão pela cabeça:
—Vamos, homem, então, que tal achas Madrid? Parece-te melhor que a tua aldeia?
—Não, senhor, respondeu o pequeno com os olhos arrasados de lagrimas.
—Dizes bem, dizes! exclamou D. João, pondo-se a rir e fazendo uma nova caricia ao rapazinho. Devem ser assim os homens; a melhor terra é sempre aquella que nos viu nascer.
—Sim, sim, ria-se tio, disse D. Lucas, fazendo um gesto de enfado; ria-se da sandice d'esse bruto. Não ha duvida, o rapaz promette! Mas deixa estar que caíste em mãos de quem te sabe ensinar!