—Não se afflija, snr. D. Lucas; o rapazelho põe-se fino com um bom par de açoites todos os dias.

—Isso fica por minha conta, respondeu D. Lucas.

—Valha-me Deus; não sejam assim, replicou o banqueiro; que admira que o pequeno tenha saudades de seus paes, se nunca se separou d'elles? E accrescentou, dirigindo-se a Angelo: deves trazer vontade de comer?

—Não, senhor, respondeu o menino, lavado em lagrimas.

—Não chores, disse D. João; chega-te para o lume e aquece-te, emquanto não chamam para o jantar, e logo tomarás conta do teu serviço e verás como antes de um anno te tornas um verdadeiro negociante.

O pequeno approximou-se da chaminé com o chapéu na mão; mas como o cegavam as lagrimas, tropeçou n'uma cadeira e lançou por terra uns papeis que estavam sobre ella.

—Desastrado! não vês por onde andas? exclamou D. Lucas, agarrando-lhe n'um braço e sacudindo-o com violencia.

De repente effectuou-se no animo do menino uma reacção inesperada. Elle que, um momento antes, mal se atrevia a levantar os olhos, ou a pronunciar uma palavra, ergueu a fronte com altivez, e virando-se para D. Lucas, disse-lhe:

—Expulse-se-me de sua casa, mas não me maltrate. Aqui maltratam-me, emquanto na minha aldeia me choram. Como quer então o senhor que eu goste mais d'esta terra do que da minha?! E accrescentou, dirigindo-se ao almocreve:

—Já não quero aqui ficar; volto comsigo para a Biscaya.