Estas palavras, bem longe de commoverem D. Lucas e o almocreve, fizeram rir este e encolerisar aquelle, que murmurou, levantando o punho fechado sobre a cabeça da creança:
—Se fosses meu filho abria-te a cabeça com um murro!
D. João, porém, saíu em defeza do pobre rapaz, arredando d'elle com violencia seu sobrinho, e exclamando:
—Lucas, já te disse que não consinto que lhe ponhas a mão. Se o achas rude e acanhado, se está commovido e saudoso, recorda-te de como eras tambem, e do modo como te apresentaste quanto vieste para Madrid. E Vm.ce, snr. carroceiro, fique sabendo que não se tratam os racionaes como as mulas.
—Não faça caso, snr. D. João; isto em mim não passa de um gracejo, e senão elle que diga a maneira como eu o tratei pelo caminho.
—Carregando-me de lenços de contrabando! O que me valeu foi não me revistarem á entrada das portas; do contrario estaria a estas horas na cadeia!
—Não está mau modo de cuidar da innocente creança, que foi confiada á sua guarda! exclamou D. João, olhando com indignação para o almocreve. Retire-se já da minha presença, que me estão dando tentações de dar uma parte de si á policia.
—Ora, snr. D. João!... Então o senhor faz caso do que dizem creanças?
—Já lhe disse que se retire da minha presença.
—Está bem, snr. D. João; mas...