—Não ha aqui mas, nem meio mas. Tenho dito, ponha-se no andar da rua.
O carroceiro não se atreveu a replicar e retirou-se murmurando não sei que insolencia.
D. João arrastou uma cadeira para junto do fogão, e sentou-se ao lado de Angelo que tinha cessado de chorar. O pobre pequeno estava já um tanto mais satisfeito por ver que nem todos n'aquella casa o tratavam com aspereza, e que se havia ali quem o maltratasse, tambem tinha quem o defendesse e lhe proporcionasse consolações e affagos, que lhe faziam lembrar os que deixára no lar domestico.
D. Lucas despeitado por vêr que o tio tomava as dôres pelo recem-chegado, a ponto de o reprehender a elle pela sua falta de humanidade, tinha-se retirado para o escriptorio, e por conseguinte ficaram sós, Angelo e D. João.
Era este natural da aldeia do pequeno, e posto tivesse ido para a côrte de tenra edade, e absorvessem de ordinario todos os seus pensamentos e acções os assumptos commerciaes, nem por isso havia renegado o paiz natal, nem esquecido os seus parentes.
—Vamos, Angelo, disse elle ao rapazinho com modo carinhoso, dando-lhe uma palmada no hombro; conversemos um bocado ácerca da nossa aldeia; venham de lá algumas noticias frescas d'aquella boa gente. Então de quem te despediste tu antes de partir?
—Despedi-me de todos os meus parentes e vizinhos.
—Muito bem! N'esse caso havias de vêr meu irmão, não é verdade?
—Sim, senhor, recommendou-me que lhe désse muitas lembranças, e bem assim á senhora D. Joanna, e a D. Lucas... mas a este é que eu as não dou.
—Não sei porque não, filho.