—Bem vês que elle, coitado, não sabe...
—Pois tem obrigação de saber que sou eu a dona d'esta casa.
—Em primeiro logar o pobre pequeno chegou meio morto de frio, e depois aquelle excommungado de Lucas começou a embirrar com elle, de modo que a creança ficou logo sem saber de que freguezia era.
—Eu me encarrego de o pôr fino com umas correias que alí tenho.
—Não digas isso, Joanninha; para o pôr fino, como tu dizes, requerem-se carinhos e não correias. Já disse a Lucas, que comigo tem de se haver, se lhe puzer a mão. A ti não é preciso repetir a mesma coisa, porque tens melhor coração do que o meu sobrinho, e estou até convencido de que has de ser para Angelo uma segunda mãe. Afianço-te que está morto por te vêr; a primeira coisa que fez, quando chegou, foi perguntar por ti.
Esta mentira do banqueiro foi o bastante para reconciliar Angelo com D. Joanna, que disse:
—Mas o que faz essa creatura no escriptorio? Porque o não mandaste subir, logo que chegou, para tomar alguma coisa? Provavelmente está ainda em jejum, molhado, cheio de frio...
—Nada, não, elle disse-me que não tinha vontade de comer; e quanto a aquecer-se, está no meu gabinete, sentado ao fogão.
—E porque foi, então, que Lucas o tratou mal?
—Que queres? coisas d'elle! Por ter dito que gostava mais da sua terra do que de Madrid.