—Deixa-te estar aqui, filho, disse D. Joanna a Angelo; espera que vaes tu agora tambem comer e os teus companheiros.

[ IV]

Pouco depois entraram na sala do jantar D. Lucas e os caixeiros e sentaram-se á mesa. Angelo porém conservou-se n'um canto, de cabeça baixa, receioso, e sem se atrever a levantar os olhos para D. Lucas.

—Chega-te para a mesa, selvagem, disse-lhe o sobrinho de Quijano. Parece-me que seria melhor ires outra vez guardar cabras lá para a tua terra.

Alegrou-se o menino e sentiu-se ao mesmo tempo ferido no coração, ao ouvir estas palavras; regosijou-o a lembrança de voltar para a sua aldeia e enluctou-se-lhe a alma com o novo insulto que acabava de lhe ser dirigido.

Approximou-se timidamente da mesa, mas não se chegou tanto, como devia, segundo a opinião de D. Lucas; este dando-lhe um murro nas costas exclamou:

—Chega-te mais, bruto! A culpa tem quem não deixa ficar estes animaes a pastar no campo, ou os não faz comer, quando muito, n'uma manjadoura em logar de mesa!

Todos os caixeiros do banqueiro desataram a rir em honra do chiste de D. Lucas.

O pobre Angelo derramava entretanto uma torrente de lagrimas, e comparava as caricias da sua familia com aquellas offensas barbaras e grosseiras.

—Então, comes ou não comes? perguntou D. Lucas.