—E que tem lá isso? replicou Marianno, para nós é até um divertimento. A pena que me resta é não haver aqui á mão um bom molho de ortigas.
—Não tenhas mau coração. Já não soffreu pouco hontem o pobre pequeno, principalmente com a historia da balança.
—E que tem que soffresse?! Tambem nós soffriamos quando eramos como elle.
—Pois por isso mesmo que a nós nos trataram mal é que eu entendo, que devemos tratar agora bem os que se acham em identicas circumstancias.
E dizendo isto, approximou-se da cama de Angelo, e principiou a abanal-o e a chamar por elle; mas o menino estava tão ferrado no somno, que continuava a dormir profundamente.
—Que é lá isso, perguntou D. Lucas, apparecendo á porta do quarto. Então esse estupido ainda está na cama?!
—Está, sim, senhor, respondeu Marianno.
D. Lucas proferiu uma praga e accrescentou, dirigindo-se a Marianno:
—Vaes vêr como esperta n'um instante. Traz-me lá de cima, da talha, uma bilha d'agua para se lhe applicar o remedio.
Marianno, que parecia feito á similhança de D. Lucas, obedeceu de prompto, e largou pelas escadas acima, esfregando as mãos de contente. No primeiro andar, e debruçado n'uma varanda de ferro que dava para o pateo interior da casa, coberto por um tolde, estava Toribio, escutando o que se passava em baixo, pois d'alli se ouvia tudo perfeitamente.