—Que temos, snr. D. Marianno, perguntou elle ao caixeiro.
—Vou buscar uma bilha d'agua para fazermos a operação.
—Ao rocim-chegado?
—Nem mais nem menos; vem d'ahi, se te queres rir.
—Isso já a mim me palpitava, que se lhe havia de fazer o remedio. Mas a agua não deve ser da talha; essa está pouco fria por causa da proximidade do fogão. Temos aqui um bom jarro d'ella, que, de proposito, deixei ficar de noite sobre o alpendre.
—És um rapaz de talento, Toribio! exclamou, rindo, Marianno, em quanto o bruto do creado pegava no jarro da agua.
—Deve estar excellente! accrescentou, vendo-a coberta d'uma espessa crusta de gelo, que foi quebrando com os nós dos dedos, á maneira que descia os degraus da escada.
Toribio não quiz privar-se do barbaro goso de assistir ao martyrio que ia soffrer a pobre creança, e correu, todo alvoroçado, atraz de Marianno.
Dom Lucas pegou no jarro, e afastando para o lado a roupa que cobria o menino até ao pescoço, despejou-lhe de golpe toda a agua por sobre o peito, com grande satisfação de Marianno e Toribio. Manoel, esse, coitado, estava compungido da sorte do rapazinho. Angelo soltou um grito e ergueu-se de subito, ao sentir no corpo a agua gelada.
—Isto é para vêr se acordas! disse D. Lucas, e completou a phrase com uma nova praga.