O menino não replicou, nem tratou sequer de desculpar-se. Atirou immediatamente comsigo da cama abaixo, e vestiu-se sem proferir uma palavra. Os seus olhos não derramavam lagrimas, mas derramava sangue o seu coração! Tinha á cabeceira da cama uma estampa, já enegrecida pelo tempo, representando Jesus crucificado. Ergueu os olhos para a divina imagem e exclamou no intimo de sua alma afflicta:
—Senhor, levae-me já para o céo ou para as minhas montanhas!
VIII
Do seio d'aquella nuvem de tristeza que o cercava, luziu para o pobre Angelo um raio de esperança. Pelas conversas que ouviu, de D. Lucas e dos seus companheiros, veiu no conhecimento de que os caixeiros do banqueiro tinham licença de saír nos dias santificados e para logo concebeu a esperança de gosar tambem d'esse prazer, libertando-se da tristeza e da oppressão de toda a semana, n'aquelle dia de folga e de liberdade.
De quantas necessidades experimentava era por certo a maior a de respirar por algum tempo livremente, vendo o céo e o sol, as arvores e os campos.
Manoel era o unico que dirigia a palavra a Angelo sem aquella aspereza e zombaria com que sempre lhe fallavam D. Lucas e Marianno. Por isso, depois de dois dias de hesitação, abalançou-se o menino a perguntar-lhe se tambem lhe dariam, a elle, licença para saír ao domingo para o campo..
—De certo, isso nem se pergunta, respondeu Manoel.
Esta resposta, que a outro qualquer pareceria em extremo laconica, fez verter lagrimas de agradecimento e de alegria a Angelo; de agradecimento porque encerrava em si um thesouro d'indulgencia, comparada com as que todos os dias recebia n'aquella casa, e de alegria por lhe vir confirmar as fagueiras esperanças que nutrira.
As palavras de D. Lucas já não pareciam á innocente creança sêccas e desabridas, nem tão pouco se lhe afiguravam crueis os motejos de Marianno e de Toribio; já não julgava insupportavel o trabalho a que o submettiam desde pela manhã até altas horas da noite, e até o quarto em que dormia, humido e frio, triste e isolado, lhe parecia confortavel e alegre desde que n'elle sonhava com os prazeres do domingo, embalado nas risonhas esperanças de disfructar, ao menos um dia na semana, gosos similhantes áquelles, que diariamente o deleitavam nos campos do seu paiz natal.
—Se os bosques e os prados da minha terra são tão formosos, pensava elle, como não hão de ser encantadores os d'aqui, se até por elles passeiam os reis e a sua côrte? E quando as caçadas, lá nos meus sitios, são tão divertidas, o que não acontecerá em Madrid, onde tudo deve participar da grandeza da capital?