E os aprestes de caça de D. Lucas! Como são ricos! a espingarda e o polvarinho marchetados de prata, e as polainas e os correões bordados a sêda! Muito me hei de divertir! Parece-me que já estou a atravessar espessos bosques de carvalhos e castanheiros seculares, a passar regatos cristallinos, e torrentes espumosas, e a vêr, a meu salvo, do alto d'uma fraga, do cimo d'uma collina ou da copa d'uma arvore, o javalí e o veado perseguidos pelos cães. Por fim, ao caír da tarde, quando tivermos reunido uma boa porção de formosas rezes, iremos descançar debaixo das ramadas ou das nogueiras que fazem sombra aos casaes, onde não deixarão de nos offerecer excellente leite e fructa saborosa. E quando entrarmos na cidade! Com que orgulho, com que alegria não atravessaremos nós essas ruas, com grandes enfiadas de perdizes ás costas, e trazendo á arreata uns poucos de burros carregados de javalís e lebres!

Chegou finalmente o domingo tão desejado. O céo appareceu limpido e puro; despontou o sol mais formoso que nunca, e um vento forte, que soprára toda a noite, tinha seccado completamente o solo. Tudo contribuia para aformosear e revestir de galas o dia destinado a compensar Angelo dos desgostos e maus tratos que soffrera até ali.

Na véspera á noite tinha dito D. Lucas aos caixeiros, em presença dos donos da casa, que eram fieis observadores dos preceitos religiosos:

—Amanhã levantar cedo para ouvir missa antes de partir para o campo.

Os caixeiros, e bem assim D. Lucas, levantaram-se effectivamente muito cedo, mas não foi para ouvir missa.

Bem se importava D. Lucas com a missa, quando se tratava de caça que era o seu divertimento favorito!

O sobrinho de Quijano marcou tarefa a cada um dos rapazes. Angelo foi encarregado de fazer varetas de junco, Manoel de encher de polvora os polvarinhos e de chumbo as bolsas dos correões, e Marianno de fazer provisão de fulminantes.

Soou finalmente a hora da partida; D. Lucas, Manoel e Marianno calçaram botins muito grossos, afivelaram vistosas polainas bordadas a seda de differentes côres, lançaram ás costas grandes saccos de caça e armaram-se não só de espingardas de dois canos, como tambem de facas de matto; por ultimo tiveram o cuidado de metter para os bolsos um bom punhado de balas.

Angelo olhava para aquelles preparativos com indizivel satisfação, e dizia com os seus botões:

—Estas polainas, estes enormes saccos de caça, estas facas de matto e estas balas indicam que vamos correr montes espessos e escabrosos, que a caça deve ser abundante e que de certo nos temos de haver com javalís ferozes, e talvez até com ursos e lobos.