—Quem?... A Necessidade.

Os visinhos punham-se a rir do bom humor de Senéca, porém sem comprehender o que elle queria dizer na sua.

Uma certa manhã apparelhou Senéca o burrico, poz-lhe em cima um sacco, que continha quatro alqueires de farinha, e chamando o pequeno, disse-lhe:

—Rapaz, toma o burro pela arreata, e leva-me esta carga á padaria de Somorrostro.

O pequeno desatou a chorar.

—Que é lá isso, homem? perguntou-lhe o pae.

—Que ha de ser de mim pelo caminho, se o burro cair, ou se espojar no chão! exclamou o rapazito, sem cessar de chorar.

—Não te dê isso cuidado, disse Senéca; se tal acontecer, não faltará quem te ajude a levantar o burro.

—E quem é que me ha de ajudar n'essas devezas tão solitarias, que não se encontra por ellas viva alma?!

—Quem? A Necessidade. Se o burro caír, ou se deitar no chão e se não podér erguer, chama pela Necessidade, e verás como logo acode em teu auxilio.