—Está bem, disse o pequeno, limpando as lagrimas com a manga da jaqueta; e pegando na corda do burro, tomou pela margem do rio, caminho de Somorrostro, que distava uma legua do moínho.

—Ora, ora, ora! Sempre este Senéca tem coisas!... diziam os visinhos, ao verem o rapazito com o burro atraz de si. Com que então a Necessidade, com cujo auxilio contava Senéca, para levar e trazer os folles, era essa pobre creança?!... E o pequeno, quem é que o ha de ajudar?

[ III]

Seguia o filho de Senéca com o seu burro á arreata ao longo dos carvalhaes, que assombram as margens do rio, que corre pelo valle profundo, que separa Somorrostro de Galdámes e Sopuerta, quando, ao chegar a um pequeno areal muito suave, fez o burro esta reflexão:

—Ai! que bella cama para eu descansar um pouco!... e então, se eu podesse soltar esta maldita carga, que me vae amolando as costellas!

E de repente, antes que o pequeno olhasse para traz, estirou-se ao comprido no meio do chão.

—Ai! minha mãe!... exclamou o rapazinho aterrado;—porque convém saber que em Hespanha, e com especialidade na Biscaya, não só aos pequenos como tambem aos grandes, o primeiro auxilio que lhes occorre invocar nas maiores afflicções, é sempre o de sua mãe, ainda mesmo que já a tenham no ceu.

E pegando n'uma vergasta começou a zurzir o burro sem dôr nem piedade; porém o animal, por mais esforços que fazia para se levantar, não o podia conseguir.

Estava já o pequeno quasi a chorar, quando se lembrou do conselho, que o pae lhe havia dado, e, em vez de dar largas ao pranto, começou a gritar:

—Necessidade! Necessidade! faz-me o favor de vir aqui ajudar-me a erguer este burro?!