—Cheguei á portaria do ceu, e encontrei alí uma porção de gente, que estava á espera de vez para entregar os passaportes para o outro mundo. O porteiro, que visava os papeis, com a sua grande calva á mostra, e o seu mólho de chaves na mão, levava a coisa com toda a pachorra, e moía-os com perguntas, primeiro que permittisse a entrada. Eu, que, como é bem natural, estava morto por me vêr lá dentro, disse com os meus botões:—Este velho, com os seus vagares, é capaz de me conservar aqui de fóra até á noite. Pois deixa estar, que se te pilho distraído, atiro commigo lá para dentro, ainda que depois me cortes uma orelha, como fizeste ao pobre Malco. Estava eu a pensar n'este expediente, quando vejo o porteiro armar uma questão com um pobre diabo, a quem não deixava entrar, com o pretexto de ter sido apaixonado de toiros. Ahi temos nós os toiros! disse eu, ao vêr aquillo. O velhote é capaz de me fazer esperar uma eternidade, e por fim, se chega a saber que tambem fui affeiçoado ás toiradas, nega-me a entrada, como aconteceu com o outro. E que faço eu? Assim que o porteiro deu uma volta: zás! raspo-me lá para dentro. Já dava graças a Deus pela minha resolução, e vae senão quando o porteiro, dá-lhe na cabeça contar quantos estavam na portaria, e conhece que lhe falta um.

«—Falta-me aqui um! grita enraivecido, e aposto uma orelha que não é senão o madrileno. Ou elle não fosse de Madrid, o maroto, que se escoou lá para dentro como um gato: deixa estar que já vamos ajustar contas!

«—Ó meu senhor, disse da banda um adulador, que tinha assim geitos de cortezão, quer que eu lh'o saque de lá para fóra por uma orelha?

«—Deixemos-nos d'orelhas, respondeu o velhote; e chamando uns musicos, a quem fallava com muito agrado, porque parece que lhe tinham sido recommendados por Santa Cecilia: Toquem lá a musica da saída do toiro!

«Os musicos começam de tocar, e eu (sempre sou muito bruto!) ao ouvir aquelle toque, julgo que ha corrida de toiros na portaria, e sáio muito lépido a vêl-a; de repente, o porteiro fecha a porta e deixa-me ficar de fóra, com uma cara de palmo e meio, dizendo-me:

«—Vá já para o inferno, seu meliante, que uma paixão por toiros como essa, não póde Deus perdoal-a.

«E aqui tens tu, querido Paciencia, como eu vou caminho do inferno por causa da minha maldita mania pelas toiradas!»

O tio Paciencia prorompeu em amargo pranto ao vêr a infelicidade do seu velho amigo, e esteve quasi a prégar-lhe um sermão, mas não o fez por se lembrar de que era prégar no deserto; ambos continuaram, por ultimo, o seu caminho; o tio Paciencia o do ceu, que era costa acima, e o tio Mamerto o do inferno, que era costa abaixo.

—Querem vêr que tambem me acontece alguma na portaria? O tal senhor porteiro tem um geniosinho endemoninhado!

Isto dizia o tio Paciencia, seguindo sempre o seu caminho, quando avistou outro homem, que vinha do lado do ceu. Este não se carpia, nem se arrepellava; trazia porém a cabeça baixa, e denotava profunda tristeza.