O caminho do ceu era escabroso e áspero, e essa era por certo a razão porque n'elle se não encontrava senão gente pobre e habituada á fadiga.
Impressionado o tio Paciencia por não ver nenhum figurão, entre tantos caminhantes, dizia, de si para si:
—Não admira que os homens ricos não façam esta viagem, porque teriam de fazel-a no cavallinho de S. Francisco. Se podessem emprehendel-a de carruagem, os diabos me levem, se não viamos por aqui mais trens do que no Prado e na Fonte Castelhana.
O tio Paciencia interrompeu as suas reflexões ao vêr approximar-se, vindo do lado do ceu, um homem, que chorava como um bezerro, e dava mostras da maior desesperação. Era nada mais nem nada menos do que o tio Mamerto.
O tio Paciencia sentiu uma pancada no coração, annunciando-lhe alguma desgraça, quando reconheceu o seu amigo.
—O que tens tu, homem? perguntou elle ao tio Mamerto.
—Que demonio hei-de eu ter! Se eu não fosse um bruto, como não ha segundo, não me fechavam para sempre as portas do ceu!
—Mas então como foi isso? explica-te com a bréca, que me tens o coração em talas. Aposto que não foi senão por causa da maldita paixão pelos toiros.
—Vamos, por quem és, conta-me o que se passou.