O tio Mamerto era capaz de ir até ao fim do mundo para assistir a uma corrida de toiros; tanto assim, que até costumava dizer: «Parece-me que trocava de bom grado a gloria eterna por uma boa tourada», ao que o tio Paciencia replicava sempre, agastado: «Homem, não digas heresias, que não vá Deus castigar-te.»

Um dia em que os passaros caíam das arvores, assados pelo sol, havia em Getafe uma corrida de garraios; o tio Mamerto, foi vêl-os, á pata, segundo o seu costume, e, de volta a casa, acamou com uma febre, que o levou d'esta para melhor vida.

No mesmo dia estava muito mal, na cama, o tio Macario, por causa d'uma tremenda coça que a mulher lhe tinha dado, porquanto se a primeira mulher lh'as dava grandes, a segunda não lhe ficava atraz. A mulher, que nunca perdia a occasião de lhe communicar uma boa noticia, deu-se pressa em lhe participar, que o tio Mamerto tinha esticado a canella, e ouvindo isto, o pobre Macario, que já não estava para muitos sustos, esticou tambem a sua.

Como eu já disse, não podia o tio Paciencia viver sem os seus dois amigos, porque lhes queria muito. Estranhando que, em todo o dia, elles lhe não tivessem apparecido para palestrar um pouco e fumar um cigarro na sua companhia, quando á noitinha deixou o trabalho, foi procural-os, e soube então que ambos tinham morrido. Essa noticia causou-lhe um abalo enorme, e, n'aquella mesma noite, tomou atraz d'elles o caminho do outro mundo, com a grande consolação de que ia finalmente para onde todos os homens eram eguaes.

Toda a visinhança sentiu muito a morte do tio Paciencia, pois todos depositavam tamanha confiança na sua honradez e no seu caracter docil e serviçal, que, quando careciam de trocar algumas notas do banco d'Hespanha, encarregavam d'isso o tio Paciencia, que era capaz de morrer arrebentado, para dar conta da incumbencia.

Na manhã seguinte á morte dos tres amigos, o bruto do creado particular do marquez, quando entrou no quarto, teve a imprudencia de dizer a seu amo que o sapateiro do portal morrêra, ao saber que dois amigos seus tinham faltado quasi de repente. E como o marquez era um fidalgo muito apprehensivo, e corriam uns certos rumores de cholera em Madrid, assustou-se tanto com a saída de sendeiro do bruto do creado, que, poucas horas depois, era cadaver, com grande desgosto da pobreza do bairro. E por todas as partes se se ouvia dizer: «Estes homens, assim, nunca deviam morrer.»

[ II]

O tio Paciencia emprehendeu a jornada do ceu, muito contente com a esperança de gosar da gloria eterna, de viver em um mundo onde todos os homens eram eguaes, e finalmente de encontrar ali os seus queridos amigos Mamerto e Macario. Com relação porém a este ultimo pensamento não deixava elle de ter suas duvidas, porque dizia lá para os seus botões:

—E se lhe não querem abrir as portas do ceu?! Elles foram sempre homens de bem ás direitas; mas o demonio da paixão de Mamerto pelos toiros, e a tolice do Macario de casar segunda vez, tendo-se saído tão mal da primeira, fazem-me receiar que lhes dêem com a porta na cara.

Para saír um tanto de duvida, perguntou a um viandante se tinha visto passar por alí dois sugeitos, com estes e aquelles signaes; e como elle lhe respondesse affirmativamente, proseguiu o tio Paciencia no seu caminho, mais alegre que umas paschoas.