Sentiu o rapaz que não acontecesse outro tanto na terra, mas consolou-se com a idêa de que o eram no ceu, e quando algum freguez da loja convidava o mestre para beber uma pinga na taberna proxima, dizia com os seus botões o pobre aprendiz:

—Pena é que não sejamos todos eguaes na terra, como succede no ceu, porque se assim fosse, por certo que o freguez me não differençaria do mestre, e, como elle, iria eu tambem agora á taberna beber a minha pinga; mas, acabou-se... paciencia... no ceu seremos todos eguaes.

Passados dois annos, coube-lhe a sorte do recrutamento; então mais do que nunca teve elle motivo para lamentar que os homens não fossem eguaes na terra como no ceu, por isso que na sua companhia havia soldados distinctos, e cabos, sargentos e officiaes, que provavam ser verdade aquillo que o mestre lhe tinha dito ácerca da egualdade humana; porém consolava-se ainda o pobre rapaz, pensando que no ceu se acabariam as distincções, e todos seriam eguaes.

Deixou de servir o rei, e aproveitando-se do pouco que sabia do officio de sapateiro, estabeleceu-se n'um portal, e alí passou o resto dos seus dias, conformando-se com as privações que soffria, na esperança de ir para o ceu e gosar então d'essa igualdade, que não encontrára na terra.

No andar nobre da casa, cujo portal occupava, vivia um marquez, que por certo muito o houvera magoado com o espectaculo da sua opulencia, se não fôra um excellente homem, e a não ser tamanha a sua paciencia, e sobre tudo tão arreigada no seu coração a esperança de lhe poder dizer um dia no ceu: «meu amiguinho, aqui todos nós somos eguaes.»

Não era porém só o marquez que lhe fazia sentir, que não fossem todos os homens eguaes na terra; até os seus amigos mais intimos queriam differençar-se d'elle. Estes amigos eram o tio Mamerto e o tio Macario, homens de tão boa conducta, que não podia o tio Paciencia viver sem a sua honrada companhia.

O tio Mamerto tinha uma paixão desenfreada pelos toiros, e passava por ser muito entendido em materia tauromachica.

Quando, no reinado de Fernando VII, se creou uma escóla para ensinar esta sciencia, esteve o bom do homem quasi a ser nomeado lente cathedratico da faculdade, e este precedente era o bastante para que elle se considerasse superior ao tio Paciencia, o qual, reconhecendo esta superioridade, se consolava pensando que, se o seu querido amigo e elle não eram eguaes na terra, o seriam por certo no ceu.

O tio Macario era muito feio, mas casou com uma mulher lindissima, porém levadinha da breca.

Ao cabo de vinte annos d'um viver amargurado, morreu-lhe o demonio da mulher, e o pobre homem ficou tão descançado que lhe parecia ter entrado no ceu; passados tempos, enamorou-se d'outra rapariga, que não ficava a dever nada á primeira, e casou segunda vez, apesar de todos os esforços que o seu amigo, o tio Paciencia, fez para lhe tirar isso da cabeça. Ora, como o tio Paciencia nunca tinha conseguido que as mulheres se agradassem d'elle, ao passo que do tio Macario se agradavam aos pares, julgava este ter certa superioridade sobre o primeiro, que, da sua parte, não deixava tambem de a reconhecer, e que devéras se teria affligido com isso, se não fôra a lembrança de que o seu bom amigo e elle seriam eguaes no ceu, já que na terra o não podiam ser.