—Rapaz, disse Senéca, vê como tu te enganas;—quem te levantou e carregou o burro não foi senão a Necessidade.
Tinha razão Senéca, e tambem eu a tenho para dizer aqui que a necessidade presta tanto auxilio e tamanhos beneficios ao homem, que não sei como ainda lhe não deram a cruz de beneficencia.
A PORTARIA DO CEU
I
O tio Paciencia era um pobre sapateiro remendão, o qual ganhava honradamente o pão de cada dia, mette que mette a sovella e puxa que puxa o fio, em um portal de Madrid, e devia o apellido por que era conhecido á resignação com que sempre tinha soffrido os muitos trabalhos, que o Senhor lhe havia dado.
Ao tempo da constituição de 1820, era já rapaz dos seus quinze ou dezeseis annos, mas tinha a innocencia de uma creança de oito, e como ouvisse a cada passo dizer que todos os homens eram eguaes, perguntou ao mestre se aquillo seria verdade.
—Não acredites n'essas cousas, lhe respondeu o mestre. Só no ceu é que os homens são eguaes.