I
Não basta que os contos populares deleitem: é mister que, ao mesmo tempo que deleitam, ensinem.
Este que vou contar não sei se satisfará á primeira condição; a segunda porém, ha de por certo preenchel-a, por isso que o leitor, que o levar a cabo, ficará sabendo quem era o Preste João das Indias, do qual todos fallam, e pouquissimos são os que o conhecem, a não ser de nome.
Pois, senhores, havia nas Indias um rei mui poderoso, cujo unico successor directo era uma filha de tres ou quatro annos. Como o monarcha se sentisse muito mal, chamou todos os grandes do reino, e fallou-lhes do seguinte modo:
—Ando tão adoentado, ha tempos a esta parte, que milagre será não esticar a canella antes de oito dias, e confesso que essa partida tão repentina para o outro mundo, me penalisa em extremo, por quanto desejava deixar casada a minha augusta filha; e no emtanto S. A. não passa por ora d'um comecilho. Asseguro-vos que pouco me importa morrer, porque para morrer todos nós nascemos, e demais, tanto faz morrer hoje como amanhã; porém o que eu não queria era que a pequena se casasse para ahi qualquer dia, em virtude de altas razões d'estado, com um principe, que não fosse muito do seu agrado.
—Senhor, lhe tornou um dos homens politicos mais importantes do reino, faz V. M. muito mal em estar a affligir-se com essas coisas. Quando a princeza chegar á edade de tomar estado, ha de casar-se com o principe, que fôr mais do seu gosto; e se houver no reino quem se atreva a querer oppôr-se á liberrima escolha de S. A., esteja V. M. certo de que tem que se haver comnosco.
—Ora, ora! Então cuidas tu que eu engulo essas patranhas? replicou o rei, traduzindo a sua incredulidade n'uma estrepitosa gargalhada. Nem que eu não soubesse o que são os partidos politicos! Aquelle que então estiver no poder apresentará a minha filha o seu candidato, e a pobre pequena terá de se aguentar, não com o marido que mais fôr do seu gosto, mas sim com aquelle que mais convier aos seus ministros, os quaes, só por satisfazerem mesquinhos interesses de partido, serão capazes de a obrigar a casar ainda que seja com o moiro Musa.
—Mas, senhor, V. M. deve lembrar-se de que este paiz é um paiz essencialmente monarchico...
—Isso é bom de dizer! Não estamos nós vendo, todos os dias, homens politicos, que nos concedem, a nós os reis, até o direito divino, e que, se um bello dia lhe não agradamos, nos chegam, inclusivamente, a negar o direito de pessoas decentes!