—Disse, sim senhor, e d'ahi?...

—Então... como é que ao marquez...

—Homem, você se não é tolo, parece-o! Pois não leu na sagrada escriptura, que é mais facil entrar um camello pelo buraco d'uma agulha do que um rico no ceu?...

—Não, senhor, não sabia isso.

—Pois póde acreditar que é a pura verdade. Sapateiros, ferreiros, lavradores, mendigos, gente, em summa, farta de trabalhar e de padecer, chega aqui a todo o instante, e não temos que estranhar a sua chegada. Já outro tanto não acontece com os ricos e os fidalgos; passam-se seculos sem vermos o focinho a um figurão, como esse que veiu hoje, de modo que, quando algum nos apparece por cá, anda tudo n'uma poeira! Ora, venha, ande lá para dentro, que já é tempo de descançar.

O tio Paciencia transpoz o limiar da porta, e não podendo com a alegria, que o dominava, caíu de joelhos, e exclamou, erguendo as mãos para o Senhor, que saía ao seu encontro:

—Senhor! Bemdito sejaes vós, que daes a bemaventurança eterna aos que padecem na terra!

FIM DA PORTARIA DO CEU.


O PRESTE JOÃO DAS INDIAS