—Como o senhor não apparecia...

—Tem razão, tem... são tantas as coisas em que tenho que pensar, que de todo se me varreu da idêa... Eu vou já abrir, amigo. Ora!... mas porque não chamou por mim, homem de Deus?!...

—O senhor bem vê que... como sou um pobre sapateiro...

—Qual sapateiro, nem qual cabaça! aqui no ceu todos os homens são eguaes.

—Devéras?! exclamou o tio Paciencia, dando um salto d'alegria.

—Pois, então!... Não faltava mais nada senão andarmos aqui com cathegorias! Isso é bom lá para a terra! Vamos, entre cá para dentro.

O porteiro nem por isso abriu toda a porta, como quando entrou o marquez, mas o sufficiente para que podesse passar um homem. O tio Paciencia acercou-se da cancella, lançou um relancear d'olhos lá para dentro, e deteve-se ali, dolorosamente surprehendido. As virgens não largavam a costura, nem os rapazes saíam da escóla; não havia uma triste sineta que tocasse; os foguetes não rasgavam as nuvens; as musicas não deixavam ouvir as suas harmonias; nem sequer uma pobre colcha de chita adornava as janellas, nem tãopouco as imprensas vomitavam versos!...

O porteiro, que não tinha nada de tolo, adivinhou o doloroso espanto do tio Paciencia, e acudiu a desvanecel-o, dizendo-lhe:

—Que quer isso dizer, homem? Então fica para ahi pasmado, em vez de entrar cá para dentro?.

—Não me disse o senhor, ainda ha pouco, que no ceu todos os homens eram eguaes?