—Perdoe v. exc.ª se o fiz esperar algum tempo, mas... é que eu não suppunha, que tivessemos por cá tamanha honra. Queira v. exc.ª entrar, que, pela balburdia que lá vae por dentro, é de crêr que já tenha corrido a noticia de que temos por estes bairros o cavalheiro mais illustre e mais rico de toda a Hespanha.
Com effeito o ceu estava alvoroçado com a chegada do marquez, para o qual começava a improvisar-se uma recepção esplendida. Repicavam os sinos, e os foguetes cortavam o ar em todas as direcções; já não havia uma varanda, nem uma janella d'onde não pendesse um cobertor de damasco, ou quando menos uma colcha de chita, modesta, mas vistosa. As imprensas vomitavam versos (ih! que nojo!) em louvor do marquez; os garôtos esganiçavam-se todos a dar vivas a sua excellencia; as virgens largavam a costura, e vestindo-se de branco, e pondo na cabeça a sua grinalda de flores, lançavam mão da lyra, e tocavam e cantavam como desesperadas; desde as charangas das ruas até a orchestra do theatro real, todas as musicas faziam ouvir as suas harmonias; em summa, era tudo festa, jubilo e regosijo. Até o proprio porteiro, quando voltou a fechar a porta, deu um pulo de contente, exclamando:
—Bravissimo! Hoje é dia de atirar uma cana ao ar!
—Sim, como não atires a cabeça!... rosnou por entre os dentes o tio Paciencia, indignado com o que estava presenciando.
Repetiam-se lá por dentro as manifestações d'alegria, e o estrondo dos festejos, e o tio Paciencia, que assistia áquelle enthusiasmo, continuava n'estes termos o seu soliloquio:
—E esta!... Ainda me custa a acreditar o que por aqui vae com a chegada do marquez! Com que, passo toda a minha vida a soffrer com santa paciencia os trabalhos e humilhações da terra, imaginando que no ceu todos os homens são eguaes, e que, por conseguinte, me verei aqui livre de todos os meus pesares e apoquentações, e no fim de contas, chego ás portas do ceu e recebo logo a prova mais irritante de desegualdade, que póde imaginar-se! Com que então, aqui, como na terra, a mim, porque sou um pobre sapateiro, fazem-me estar, como um espantalho, á espera na portaria, e ao marquez, só porque é marquez e rico, e por vir carregado de cruzes e calvarios, abrem-se-lhe, de par em par, as portas, e recebem-n'o com repiques de sinos, com foguetes, musicas, versos, e colchas de seda nas janellas!... Isto realmente é para fazer ferver o sangue nas veias a um santo!... Porém, paciencia, snr. Paciencia!... Se consigo a final entrar lá para dentro, o que já me vae parecendo bem difficil, posso reputar-me feliz, porque alli deve passar-se divinamente, a julgar pelo pouco que vi, quando o velho deu passagem ao marquez, e pela baforada, que sae, quando abrem ou fecham a porta ou o postigo.
O barulho que este fez ao abrir-se, tirou o tio Paciencia das suas meditações; fez-se vêr a calva do porteiro, o qual vinha examinar se já havia gente reunida, á espera, na portaria.
—O que faz você ahi? perguntou o porteiro, reparando no tio Paciencia.
—Senhor, respondeu humildemente o tio Paciencia, estava esperando...