Assim terminou a conferencia do rei com os próceres da republica, e avisado andou S. M. em não a deixar para o dia seguinte, porque n'aquella mesma noite teve um ataque tão forte, que esticou a canella, sem ter tempo sequer para dizer «Jesus».

[ II]

Como era natural, apenas o rei morreu, levantou-se a questão da escolha d'uma regencia, que devia tomar as rédeas do governo, durante a menoridade de sua excelsa filha, e então é que foram ellas!

Sobre se a regencia devia ser de tres, ou d'um unico estadista, e se este deveria ser Pedro ou Paulo, levantou-se tamanha tempestade, que ia tudo pelos ares. Por ultimo optaram pela regencia una, e por então terminou a contenda; porém os partidos politicos, para os quaes vêr os seus contrarios no poleiro e vêr o diabo é tudo uma e a mesma coisa, começaram novamente a tecer os pausinhos. Era o regente um soldado destemido e honrado d'uma vez; porém como homem d'estado não passava d'um simplorio, que entendia tanto de governo como eu entendo de lagares d'azeite; os seus inimigos, aproveitando-se da inepcia com que elle dirigia a politica, não descançaram em quanto lhe não deram um pontapé, e o expulsaram do palacio.

Nomeou-se novo regente. Este então era um passaro que cantava na mão, porém ao mesmo tempo, tão medroso, que apenas ouvia um tiro, era capaz de se metter cem braças pela terra abaixo; d'ahi resultava que cada dia havia um pronunciamento.

Por effeito de um d'esses pronunciamentos, caíu o regente, e organisou-se então uma regencia composta de tres magnates.

Até ali era um só a crear nichos para empregar os seus amigalhotes, um só a querer enriquecer á custa da nação, um só a monopolisar os favores da joven princeza, e um só a governar mal; multipliquem agora esse um por tres, e imaginem a poeira, que se levantou com a tal regencia trina!

Conheceu finalmente a princeza que estava em edade de casar-se, e correu voz, por todas as nações, de que ella punha a sua mão a concurso e a daria ao principe, que mais lhe agradasse.

Os primeiros, que acudiram ao reclame, foram os judeus, os quaes trajavam rica e vistosamente, e tinham o cuidado de fazer tinir bem o dinheiro diante da princeza, suppondo talvez, que o vil metal teria para ella tantos attractivos como para elles; e, emquanto os que iam á mostra faziam sua côrte á princeza, andavam os rabinos pelos cêrros pedindo a Deus, que désse a algum dos da sua casta aquella boa pequena, que tão bello partido era.

Chegaram em seguida os mahometanos, e era muito para se vêr, tantos moiros montados em cavallos, mais ligeiros que o vento, escaramuçando e jogando canas, a vêr se, assim, engodavam a princeza.