—Santissimo Padre, o que se está passando nas Indias é, quanto a mim, coisa mais seria, do que parece, á primeira vista. Aquillo é um paiz desgraçado, onde ninguem crê em Deus, nem em Santa Maria; onde todos são impios e atheus. Se a rainha se casa com algum pêrro judio, estamos bem aviados; vae tudo para o diabo. Se porém a rainha dér a mão de esposa a um christão, corto a cabeça, se todos os indios, dentro em poucos annos, não forem tão christãos como nós. Posto isto, vou pedir uma graça a Vossa Santidade.

—Se fôr coisa que eu possa conceder-te...

—Que V. S. me deixe ir ás Indias, para ver se faço entrar aquella gente no bom caminho.

—Estás servido, filho; pódes partir quando quizeres.

—Pois, n'esse caso, vou immediatamente tirar passaporte.

—Toma cuidado, filho; vê lá que esses infieis te não preguem alguma peça... particularmente os judeus...

—Isso não me mette medo, que por muito que saibam, sempre hei de saber mais do que elles.

—Pois vae na graça de Deus, e leva comtigo a minha benção paternal.

—Graças, Santissimo Padre!

Foi dito e feito; o Preste João, acompanhado d'um luzidissimo séquito de sacerdotes, em cujo numero se contavam os melhores cantores de Roma, e munido de riquissimos paramentos e decorações d'egreja, inclusive um orgão, que era o melhor que, até então, se tinha visto n'aquelle genero, tomou o caminho das Indias.