Os judeus e os moiros começaram logo a murmurar, accusando de parcial a augusta presidente; esta porém fel-os entrar na ordem, a poder de muitas razões, e toques de campainha.
—Senhores, disse o Preste João, trata-se de orientar a S. M. acerca d'um assumpto mui grave, qual é a escolha do homem a quem, de preferencia, deve ligar o seu futuro. Ora, o que mais interessa a S. M., é saber o que mais lhe convém, se um marido christão, se mahometano, ou judeu; quanto a mim a questão está resolvida, para S. M., desde o momento em que esta augusta senhora, ou para melhor dizer, senhorita, souber qual é das tres religiões aquella, que mais protege e favorece os fracos em geral, e a mulher, em particular.
«Comecemos pela religião judaica.
«A mulher, no povo de Israel, era escrava submissa do homem, e não sua companheira. Quasi nas primeiras paginas, nos testemunha isso o velho Testamento, pois nos diz que Abrahão, marido de Sára, recebeu Agár por mulher, ainda em vida da primeira, e logo adiante nos conta que Esaú casou, ao mesmo tempo, com duas irmãs cananêas. O Decálogo, revelado mais tarde a Moysés, no alto do Sinai, dizia: «não desejarás a mulher do teu proximo»; mas não dizia: «terás uma unica mulher», e Salomão, que era o prototypo da sabedoria hebraica, teve milhares de concubinas. Pergunto eu agora a S. M. se está disposta a soffrer que o seu futuro marido lhe dê uma, ou mais substitutas?!
—Substitutas! a mim!... exclamou a rainha indignada. Tenho bom genio para isso! Mais facil seria enterrarem-me viva!
—Pois eu continúo....
Aqui interrompem os judeus o orador, descontentes do caminho que leva a sua causa; a rainha porém fal-os entrar na ordem, á custa de repetidos toques de campainha, e com ameaça de os fazer expulsar do salão.
O orador continúa:
—Ficarei por aqui a respeito de judeus, os quaes, em verdade, me causam dó, ainda que não seja senão por os vêr condemnados a esperar o Messias, até á consummação dos seculos; com isso já não estão mal castigados por haverem crucificado a Christo, porque lá diz o rifão: «quem espera, desespera». Passemos agora aos mahometanos. Quem era o tal Mafoma?
—O propheta de Deus! exclamam os mahometanos, pondo a mão no peito, e dobrando-se reverentemente.