—Qual propheta, nem qual cabaça!...

Aqui é que foram ellas! Dizer isto o Preste João, e arrancarem os moiraços dos chanfalhos, rugindo de cólera, foi tudo obra d'um momento; a rainha porém sacudiu a campainha, mandou entrar o piquete da guarda, e graças a esta energia da presidencia, accommodaram-se os perturbadores da ordem, e o orador pôde, a final, continuar:

—Mafoma era um sugeito que passava por sabio e grande, entre os seus compatriotas, pela razão muito simples de que na terra dos cégos, quem tem um olho é rei! Um dia, disse elle com os seus botões: Como hei de eu arranjar a dominar estes barbaças, que não tratam senão de se divertir com as moças?... como?... esperem lá... já sei. Engendro-lhes uma religião baseada no grosseiro sensualismo, e metto-lhes na cabeça, que ella me foi revelada por um anjo.» E dito e feito: arranjou o tal alcorão, segundo o qual, a mulher e o cavallo vem a ser, para o homem, uma e a mesma coisa, por isso que apenas servem para o divertir; e fez acreditar aos asnos dos seus compatriotas, que, no outro mundo, haviam de encontrar moças ás duzias, e obra desenganada.

—E é que as havemos de encontrar! gritam furiosos os mahometanos.

—Deixemos-nos de lerias!... que hão de vocês encontrar?! Só se forem alguns tições, que outra coisa não podem lá achar uns barbaros como vocês, que atravessam seculos e seculos, sem dar um passo na senda do progresso! Vamos porém agora a vêr o que é a mulher, segundo a religião estupida de Mafoma.

—Lancem-se essas palavras na acta! gritam, afogados em cólera, os mahometanos.

—Não é da minha real vontade! responde a rainha. Prosiga o orador no seu discurso, que eu cá estou para lhe manter o uso da palavra.

—Pois bem, eu continúo: É para cortar o coração, e fazer caír a alma aos pés, a maneira como a mulher é tratada pelos musulmanos. Não se contentam estes senhores com ter duas ou tres mulheres; possuem centos d'ellas, encerradas em carceres, a que dão o nome de serralhos, ou haréns. Atravessa a gente as cidades mais populosas da Turquia, e não encontra uma mulher siquer para um remedio; e isto porque esses barbaros até as privam do ar e do sol, as duas coisas mais preciosas, que a natureza concede á creatura. Horror! cem vezes horror!! Negarem á mulher, esse formoso ser, todo amor e ternura, a quem todos nós temos dado o dulcissimo nome de mãe, o ar e o sol, que não negam aos mais immundos irracionaes! Maldição sobre essa lei impia, sobre o falso propheta, que a dictou, e sobre o povo barbaro e fanatico, que a segue!

—Ah! perro christão!... gritam, a um tempo, todos os musulmanos, ao ouvir a energica apostrophe do Preste João; e, rugindo de raiva, mais furiosos ainda do que da primeira vez, lançam mão dos alfanges, com ameaça de acabar tragicamente com a discussão; a rainha porém, mandou entrar novamente o piquete da guarda, que os desarmou e os metteu na ordem, a poder de muita coronhada d'armas.

Apasiguada que foi aquella rusga, continuou o Preste João o seu discurso: