Dava n'um tom dogmatico uma idéa,
E vinha discutir com S. Thomaz;
Iniciava os sábios da Chaldêa,
E nos biblicos tempos da Judea
Andava a intrigar Christo com Caiphaz.
Tem no rosto o descor d'um fulminado;
—Era mulher nas lendas monacaes;
Outras vezes gigante e corcovado,
E vagava no mundo disfarçado,
Como os deuses nas formas d'animaes.
Nas regiões serenas, luminosas,
Encontram-se inda os seus lucidos rastros?…
Ó constellações felizes, piedosas…
Inda, ás noites, choraes silenciosas
A grande lucta biblica dos astros?…
Nasceu nas doces, puras regiões?…
—Ah quem onde dirá nasceu Satan?!…
—Nasceu entre as demais constellações?
—Commandava as flammantes legiões?…
E seria seu pae Leviathan?…
N'esse tempo do exilio as penas mestas
Jupiter não soffrera inda proscrito;
Apis não inventára suas festas…
Não errava inda Pan pelas florestas,
E não ladrava Anubis no Egypto.
Pára aqui, n'este ponto, a humana vista!…
—Quem sabe se do velho Cahos nasceu?…
Só quando contra Deus a lança enrista,
É que segundo, o eleito, o Evangelista…
Não se acha mais o seu lugar no Ceu?…
*AGUA FURTADA D'UM ORIGINAL*
(A Fernandes Costa)
Eu moro altivo é só n'uma trapeira,
Onde as pennas das pombas deixam rastros;
Exposta todo o dia á soalheira…
E onde passa dormindo a vida inteira,
Nas visinhanças limpidas dos astros!
Como na era feliz das serenadas,
As graves castellãs nos seus balcões,
E gothicas varandas recostadas…
—Vejo, em baixo, passar as cavalgadas,
Os enterros e as lentas procissões!…