Quem dirá os espinhos que cingiste!
Quem pesará teu calix de agonias!
E quantos longos seculos carpiste
Aquella luz que cae maguada e triste,
Ó grão crucificado d'ironias!
Eu sei que hoje estás morto ou retirado,
Ó corvo escuro e mau do firmamento!
E que andavas no mundo envergonhado,
Já doentio e calvo, e desdentado,
E que era o teu catarrho a voz do vento!
Tu foste sabio, confessor e medico
Nos tempos, legendarios, medivaes…
Tu eras visionario, vão, prophetico…
E o mocho que adejava escuro e tétrico
Nos conventos, egrejas, cathedraes…
Eu sei que foste tu que, um dia, impuro,
Tentaste a castidade de Rachel!
Em Delphos desvendavas o futuro…
E cheio d'um pavor tragico e escuro,
Deixaste envenenar-te Daniel.
Em Sodoma, na noute derradeira,
Tentas as filhas sensuaes de Loth!
Fazes de Roma toda uma fogueira!…
E és tu mesmo que escolhes a figueira
A Judas, natural d'Iscarioth.
Foi elle que abrasou na carne, um dia,
A tribu sensual de Benjamin!
Prégou na cathedral d'Alexandria;
Era pae d'um senhor de Normandia…
Foi amigo de Nero e de Cain.
Ia tentar o asceta á sua cella
Nos claustros escuros do Occidente;—
Aos Magos escondeu nos céus a Estrella…
E andava disfarçado em sentinella
Guardando o Justo, o Bom, e o Resplendente.
Ao homem tinha uns odios velhos, tragicos…
E era elle, o que andava entre as pelejas!…
Corrompeu os conselhos areopágicos;
E fazia roubar pelos seus magicos
As hostias consagradas nas egrejas.
Fazia distrair a S. Clemente
Com a bulha invisivel de corceis;
E era elle, nas horas do poente,
Quem apagava as luzes, de repente,
Quando oravam nos templos os fieis.
Tomava, ás vezes ordens e a tonsura…
E benzia as prostradas povoações;—
Fazia a voz então austera e dura,
Explicava os segredos da Escriptura,
E cantava entre as lentas procissões…