Á India, China ou o Iran, e os meus instantes
Passal-os a teus pés, grave e encrusado,
N'um tapete chinez, avelludado,
Com flores ideaes e extravagantes.

Nossa vida seria, ó pomba minha!
Mais leve do que a aza da andorinha…
E, nas horas calmosas, eu e tu…

Olhando o mar sereno, o mar unido,
Comeriamos os dois arroz cosido…
Emballados n'um junco de bambu!

*A BIOGRAPHIA DE SATAN*

Fragmento

Eu vou contar a grande lenda escura
Do fulminado tragico da Luz!
Seu antigo esplendor e sorte dura
Quando andava entre os povos da Escriptura,
E comprava os juizes de Jesus.

Elle é o Velho Mal, o Orgulho, o Enfado,
E sómente Satan é um pseudonymo;
É o auctor do Remorso e do Peccado,
O morcego da Biblia, e o cão damnado
Que espancava de noute S. Jeronymo.

No tempo em que era bello, grande e forte,
Fez a guerra dos astros contra Deus;
Tem-lhe sido incostante e varia a sorte!
—Andava roto e pobre por Francfort
Nos bairos tortuosos dos Judeus.

Ó anjo expulso, triste e escarnecido,
Que foste mais fulgente do que o dia!
Deus adorado em Delphos e em Gnido!
Ah quem mais do que tu terá soffrido,
E teve essa ideal melancolia!

Já Vier contra ti perdendo o tino,
Fez dos seus crús pamphletos um açoute;
Fez-te sonetos, lubricos o Aretino,
E S. Thomaz contou o teu destino,
E as aventuras célebres da noute.