E sinto-me ir minando; um mal extranho
Que ninguem sabe, e vista alguma sonda,
Me mata lentamente, como um lenho
Que vae levando, mar em fóra, a onda.

Todas as tardes fujo ao sol poente;
Recolho cedo a casa, e durmo quente,
E a Medecina já me desengana…

E o meu mal é d'amor, e a minha amada…
Uma Chineza ideal, que vi pintada
N'uma taça de chá de porcelana!

*A VALENTINA DE LUCENA*

Eu tambem já em tempos não distantes,
Fiz versos sensuaes e namorados,
Aos occasos de luz ensanguentados,
E á meiga e boa lua dos amantes.

E escrevi pelos albuns elegantes
Idyllios em papeis assetinados,
E, como a luz dos ponches inflammados,
Fiz odes ideaes e extravagantes.

Mas hoje emfim mudei, e inda ha bem pouco,
A diva por quem choro e vivo louco,
—A flor, a flor ideal das maravilhas…

A minha deusa de cabello preto…
Pediu-me, rindo, a graça d'um soneto,
—E eu mandei-lhe uma caixa de pastilhas!

*PHANTASIAS*

Tenho, ás vezes, desejos delirantes
De a todos te roubar, meu lyrio amado!
E levar-te, em um vôo arrebatado,
Aos paizes phantasticos, distantes.