Teem trabalhado, occultos, noite e dia,
Ó reis! ó reis! as luzes d'esta orgia,
De subito, que vento apagará!
—Corre no ar um echo subitaneo…
E escuta-se, feroz, no subterraneo,
O riso de Marat!

Chega, talvez, a hora das contendas!
Ó legionarios! desertae as tendas,
Já demolem os porticos reaes…
Os que teem esgotado a negra taça,
—Cantam, ao vento, os psalmos da Desgraça,
E a historia dos punhaes!

Vão, ha muito, na sombra, foragidos,
Pelas neves, curvados e transidos,
Em quanto Deus se aquece nos seus Ceus!
Vem do Sul uma lugubre toada,
E escuta-se Rousseau, na agua furtada,
Gritar—Que me quer Deus!?

Erguem-se ebrios de mortes, de vinganças,—
Assoma lá ao longe um mar de lanças,
Resoam sobre os thronos os machados…
E a Europa vê passar, cheia de assombros,
Ferozes, em triumphos, aos seus hombros,
—Seus reis esguedelhados.

Á voz das legiões rotas, sombrias,
Desabam pelo mundo as monarchias…
Tremem os graves bispos… e depois…
Que mais farão? perguntam, desolados,
—Vão ser, inda, depois, crucificados
Os deuses e os heroes!

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Vae prolongada a vil, barbara orgia!…
No silencio da noite intensa e fria,
Vem uns echos perdidos de batalha…
Como uns ventos do norte impetuosos,
—São uns passos, nas trevas, vagarosos,
Os passos da Canalha!

Elles veem de mui longe… mui distantes
Como sonoros bathalhões gigantes,
Como ondas negras d'um sinistro mar…
N'uma viagem tragica e sem gloria,
—Ha muito, pela noite da Historia,
Que os oiço caminhar!

Quem sabe se virão… é longa a estrada,
D'esta comprida e aspera jornada
Quem sabe quando, emfim, descançarão?
As pedras atapetem-lhes com flores!…
Lá veem queimados, rotos, vencedores,
Altivos e sem pão!

Não raiou inda o dia da Justiça!…
Mas, breve, talvez, se oiça a nova missa,
E a Liberdade emfim junte os seus filhos…
Vão talvez vir os tempos desejados!
—E, então, por vossa vez, ó reis sagrados!
Saude aos maltrapilhos!