Entre pois estas hesitações e absurdos d'escólas, o auctor achou melhor não preferir nenhuma, reservando todas as suas affeições para uma poesia mais sadia, forte e verdadeira, e que não desprese nem o amor, nem a imaginação, nem a liberdade.
Esta poesia nova, que procura o seu caminho tão gloriosamente no meio d'estes tempos tão turbados, já certa de triumphos verdadeiros, e a que alguns teem chamado Humanismo, é a que comprehendendo o homem com todas as suas paixões e as suas virtudes, nem deprimindo-o scepticamente, nem fazendo-o perder chimericamente nos astros, ha de estebelecer o verdadeiro equilibrio entre o ideal e o real, e mirando como a philosophia a melhorar a humanidade e a alargar o ideal humano, ser digna da nobre missão que n'estes tempos lhe está confiada.
Mau grado as vãs declamações ultimas contra o lyrismo, por alguns pregoeiros d'uma theoria de que não ouviram senão a primeira palavra, o auctor está convencido de que a verdade, a pureza e o sentimento são e foram sempre os distinctivos d'um verdadeiro artista, e que aquelle poeta que jámais cantou a Mulher e o Amor, é um ente tão duhio na Sociedade, como um sacerdote da deusa Tani em Carthago.
Alem d'isso recorda-se e recorda aos declamadores levianos que Lucrecio no mais bello e admiravel poema philosophico sobre a Natureza, que se tem escrito no mundo, De natura rerum, começou por uma elevada invocação a Venus—que é a mulher na Antiguidade feita deusa.
Hoje um poeta moderno que tem um ideal da mulher muito mais nobre, mais puro, mais casto, devido á philosophia christã, por que não ha de tratar de a engrandecer, de a elevar e distinguir, dando-lhe—como Philosophia e como Arte—o papel que ella tem direito a representar na sociedade—banindo dos seus livros a poesia da cortezã?!
O auctor no seu livro apenas duas ou tres vezes alludiu a ellas, e foi para as lamentar, e, talvez, injustamente, para as condemnar.
Injustamente; porque a bondade é tambem uma justiça superior; e uma das grandes missões do poeta é a d'alem de ser justo, ser bom.
E em nenhuns tempos a missão do poeta foi tão grande de cumprir como hoje.
Uma pretenciosa e depravadora lepra lavra na sociedade; uma enorme corrupção de gosto e de ideal nas letras. O jornalísmo, a parte mais deficiente da litteratura portugueza, toma sobre a desgraçada ignorancia geral um ascendente que seria comico se não fosse para lamentar, e invade como uma grande corrente, sem dique, a opinião publica, reduzindo a Economia, a Arte, a Politica e a Philosophia a questões de visinhas despeitadas.
A Mocidade, de quem ha tanto a esperar, explora avidamente o bel esprit que tanta indignação causava a Rousseau, todo forjado segundo os moldes mais deploraveis do espirito sem ideal francez, e que está para a verdadeira ironia austera e demolidora, como Proudhon está para uma cocotte e o sentimento de Chénier está para o sentimentalismo de salla de Feuillet.