Ha muito que é chamado o Aborrecido,
O rebelde, o leproso, o descontente,
E eterno tentador sempre vencido,
Que habita o Ar, a Terra, e o Fogo ardente.
Elle é a hydra, a Carne, o incontinente,
O orgulho nos abysmos submergido,
O que anda sempre em nós, o cão batido,
O espirito da Duvida, a Serpente,
Mas, mau grado, ó Egreja, a tua ira,
Elle não é nem Vicio, nem Mentira,
Nem synonimo de Mal e de Impureza!…
E eu bem sei, negro symbolo apupado,
Velho satyro, vil, calumniado,
Diabo! que te chamas «Natureza!»
V
*Em toda a parte*
Elles tem dito e escripto que o Peccado
Anda disperso e roe o mundo inteiro,
Que habita o duro coração guerreiro,
E o peito femenino e delicado.
Que anda no ar, em nós, da flor no cheiro,
Das pugnas no ruido desolado,
No vinho, na paz doce do mosteiro,
—No corpo da mulher perfeito e amado!—
É portanto, homem timido e sujeito,
Quer te encostes, ou não, ao vão Direito,
O teu funebre gozo e teu tormento!
Habitua-te a tel-o na Desgraça,
No ar, no chão, na flor, no som que passa,
—E até, serpente vil, no Pensamento!