E o senhor Gloria aqui, n'um travesseiro
Deita a cabeça, de pensar prostrado;
—O papagaio ri no seu poleiro,
—E a senhora sorri para o criado.
*FARÇA TRISTE*
Je suis son pére.
(Flaubert)
Ninguem diria ao certo a edade que teria!
Era um velho devasso e histrião—bom guia
Para mostrar de noute, aos baços candieiros,
As casas de bordeis aos velhos estrangeiros.
Encontravam-o sempre a errar, imbecilmente;
Era alto, magro, hostil, e dava-se á aguardente—
Tinha um certo tremor em todo o corpo—o vinho
Dava-lhe um rir constante; tinha o sorrir mesquinho
E dubio que nos faz arrepiar mau grado;—
Fôra mendigo e actor, ladrão, bobo e soldado.
Tinha os habitos vis e as farças de caserna,
Ninguem sabia mais os casos de taberna;
Como era magro, esguio, e alto como um cypreste
Dobrava para o chão; o sopro do nordeste
Fazia-o tiritar; tinha os labios fendidos,
E uns oculos azues e linho nos ouvidos.
No entanto segue o Mal varios e negros trilhos!
O livido truão tinha mulher e filhos
Esfomeados, nus, amados com paixão;
Por elles fôra tudo:—actor, bobo e ladrão.
Quando voltava á noute, as lividas creanças
Rotas, velhas da fome, ella soltas as tranças,
Desfeita, emmagrecida, esqualida, doente,
Faziam-o chorar a vida e a aguardente.
Injuriava Deus. Elle é sublime e augusto,
Bello celeste, bom; dizem-o grande e justo,
E habita são, feliz, de soes agasalhado,
Em quanto os mais tem fome, e que elle acabrunhado