Era velho e ladrão! Tinha accessos, delirios,
E apostraphava o Ceu hermetico aos martyrios,
Abraçava a mulher e os filhos, e de novo
Saia;—d'esta vez, voltava com um roubo!

Quando voltava então, os prantos da alegria
Tornavam-os boçaes,—e o pão era uma orgia!

A mulher tinha um rir alegre e natural,
E elle magro e faminto, exhausto, machinal,
Chorava como um pae; tinha olvidado o inferno,
A misería, a desgraça; era boçal e terno;
Tinha um ar virtuoso e angelico; os pequenos
Cansados de soffrer a fome, o frio, ao menos
Sabiam comer bem! Eram emfim felizes!
Não rojavam na terra a devorar raizes!
Comiam-lhe o seu pão! Custara-lhe trabalho!
Coitados! sempre assim, sem pão nem agasalho!
Era uma vida atroz, ingrata vil, escura!
Não tinham de comer, não tinham cobertura!
Tossiam tanto á noute!—Ah! Deus era um ingrato!

E os prantos em roldão cahíam-lhe no prato.

*MADRIGAL DA RUA*

Ó irmã das açucenas!
Meu coração é um horto,
Semeado de mais penas
Que as chagas d'um Christo morto.

Tanto é ver-te o meu desejo!
Tanto em mim poder conservas!
Que eu creio se não te vejo
Já ser debaixo das hervas!

……………………………………

Debaixo d'essas janellas
Sempre crueis e fechadas,
Hontem á noute, ás estrellas,
Deram-me quatro facadas!

Mas nenhuma fez no peito
O mal,—que por minha cruz!
Os teus olhos me tem feito
Dando facadas de luz!