Sim, quantas vezes n'uma tarde bella,
Á dorida eloquencia d'um castello,
D'um muro, não pensei nos Ceus, n'aquella
Que eu podia partir como um cabello!

Nuvens distantes, rubras, singulares,
Formas vagas… neblinas pardacentas,
Velhos musgos… azul… cousas nevoentas
Sois causas de phantasticos pesares!

Quem não terá scismado em suas magoas
E amado as cousas mysticas, celestes,
Por um luar calado sobre as aguas
E um choroso sol posto entre os cyprestes!

No entanto sonhos vãos que nos prendeis
Qual prendem velho muro as verdes heras…
—É tempo brancas pombas que deixeis
Os laranjaes e as ruas das chimeras!

E é tempo que as torturas assassinas
Que nos rasgam melhor do que um punhal,
—Bem o sabeis mãos brancas, pequeninas!
Vos não junteis miserias do Ideal!

*TARDE DE VERÃO*

Trepam-lhe pelas janellas
Jasmins, cheirosas serpentes,
E soltam-se as bambinellas
Em pregas indifferentes.

Os lyrios que são uns ais
Suspiram melancholias;
Riem quadros sensuaes
Nas largas tapeçarias.

Satyro ri nas florestas
Niobe soluça magoas,
E escuta-se entre as giestas
A voz rythmica das agoas.

E á luz dubia dos occasos
Ensanguentados do Sul
As camelias dos seus vasos
Olham voltadas o azul.