O sabio antigo andou pelas ruas d'Athenas,
Com a lanterna accesa, errante, á luz do dia,
Buscando o varão forte e justo da Utopia,
Privado de paixões e d'emoções terrenas.
Eu tambem que aborreço as cousas vãs, pequenas
E que mais alto puz a sã Philosophia,
Ha muito busco em vão—ha muito, quem diria!
O mais cruel ideal das concepções serenas.
Tenho buscado em balde, e em vão por todo o mundo;
Esconde-se o ideal no sitio mais profundo,
No mar, no inferno, em tudo, aonde existe a dôr!…
De sorte que hoje emfim, descrente, resignado,
Concentrei-me em mim só, n'um tedio indignado,
E apaguei a lanterna—É só um sonho o Amor!
*ULTIMA PHASE DA VIDA DE D. JUAN*
(AMOR DE COSINHA)
Afinal D. Juan vinha, hoje, a morrer d'uma indigestão.
(Palavras d'um grande realista)
Cançado de vãos fogos de Bengalla,
Como Pansa odeei o Pensamento,
E abandonei os ideaes de salla
—Pelo amor da cosinha succulento!
E os meus fortes desejos sensuaes,
—Desejos que hão de dar na morte escura!—
Soluçam só—ó deuses immortaes!
Só pela ama d'um florído cura.
Ella é o forte e esplendido ideal!
Seu cabello é mais fino do que o ouro,
E a sua voz mais bella que o metal,
E os cantos catholicos do côro.