Que segredos dirão nas brisas mensageiras,
Á doçura da lua, a flor das larangeiras,
O lyrio, a madresilva, os jasmins vacillantes,
Que foram já, talvez, seios fortes e amantes,
E que hoje' á branca luz dos myrthos sideraes,
Conversam sobre o amor e os gosos ideaes
Do tempo, que a fallar corriam breve as horas,
Que seus olhos leaes tinham a côr d'amoras,
E debaixo do Ceu teciam longas danças,
Ao pé da amante meiga e de compridas tranças!…
No lago somnolento a flor do nenuphar
Talvez é um coração que abre para chorar!
O lyrio um seio bom,—e as violetas curvadas
São os olhos talvez das doces bem amadas!…
Feliz o semeador que vive entre os arados,
O campo, os lentos bois, longe dos povoados,
Entre os rijos irmãos humildes e trigueiros,
Que vivem sob o sol, á chuva, aos nevoeiros,
E quando á noute finda os suarentos trabalhos,
Vem a doce mulher buscal-o nos atalhos,
Cujo olhar como a lua é tranquillo e consola,
E descanta chorando á noute na viola!…
E os que andam pelo mar, alegres e contentes,
Entre as ondas e o Ceu, saudosos, negligentes,
Entre os cantos do vento, olhos fitos nos ceus,
Entre o azul, o escuro, e os frios escarceus,
Hombro a hombro o abysmo,—abysmo sempre aos pés,
Que dormem á poesia, á lua das marés,
E morrem uma noute, ó mar, aos teus emballos,
Deixando uns olhos bons e meigos a choral-os!
Eu por mim não terei um astro bom nos Ceus,
Nem uns olhos leaes que chorem pelos meus,
E que inda a fronte mal me obscureça a magoa,
Como espelhos d'amor já sejam rasos d'agua!…
Sósinho passarei, e não irei jámais,
Pelas murtas com ella ás tardes outomnaes;
De inverno não terei os consollos do lar,
Nem do estio a doçura immensa do luar;
Meus filhos não irão jámais colher os ninhos;
Ninguem virá á tarde esperar-me nos caminhos!
*OS MONGES DE ZURBARAN*
(IMITADO DE TH. GAUTIER)
Monges de Zurbaran! ó magros solitarios,
Que ao longo deslisaes dos grandes claustros frios,
Correndo eternamente as contas dos rosarios!
Dos remorsos sentis os santos desvarios?
Que mal vos fez a Carne, algozes de tonsura?
Espectros monacaes cavados e sombrios?
Essa materia vil—que é divina esculptura,
E que o Justo vestiu nas santas tradições,
Com que lei e razão é que bradaes—Impura?