Ó santos! eu entendo as allucinações!
Os chumbos em fusão, as abrasadas lenhas,
As grelhas, a polé, e as fauces dos leões!…

As rodas infernaes que rasgam as entranhas,
Tudo o que Roma ideou;—mas o que eu não entendo
É o suicidio e a fé sob essas estamenhas!

Por que pois, sempre assim, um suicidio horrendo?
E toda a noute a carne, entre as vis disciplinas,
Dilacerar até o sangue ver correndo?

Não são só as crueis macerações mofinas,
E o continuo bater nos peitos angulosos,
Que em tuas letras só, ó Christo! nos ensinas!

Julgais que Deus só quer aos grandes ulcerosos!
E que essa morte lenta, esse ar austero e grave,
Vos faça abrir mais cedo os ceus gloriosos?

Julgais que tal suicidio os grandes crimes lave?
—Largae das magras mãos, unidas, as caveiras,
Vossas covas, mortaes, deixai que um outro as cave!

O espirito immortal ergue-se entre as fogueiras;
Mas continuo insultar a Carne com desdem,
É rebaixar-te, ó Deus, a charlatão de feiras!

E comtudo que força e que energia teem,
Esses monges de Deus, em vivo amortalhados,
A viver sem mulher, sem paes, e sem ninguem!

Tão moços! e, assim já, tão velhos e cavados!
Por horisonte um claustro e um muro,—indifferentes,
Sósinhos a resar ante os Crucificados!

Teus frades, Lesueur, são d'estes differentes!
O triste Zurbaran soube exprimir melhor
Os extases do olhar e as cabeças doentes!