E a vertigem do ceu, o tedio, o desamor
Da Carne, que lhes dá aureolas febris,—
E esse aspecto que faz gelar-nos de pavor!

Como o duro pincel lhes pinta a flor de liz
Dos cilicios! e a luz dos olhos mortecidos,
E essas rugas que os faz magros, sublimes, vis!

Como as pregas alonga aos habitos compridos!
Como ás faces lhes cava a pallidez da terra,
Como se fossem já uns mortos estendidos!

Quando as vizões do Ceu nos extases descerra,
Ao Crucifixo os pés beijando soluçantes,
E açoutando-se qual o mar açouta a serra!…

Ou quando passeaes pelos claustros gigantes,
Nem mesmo a propria sombra atraz deixando ao muro,
—Sempre, ó monges! vos pinta eguaes e semelhantes!

Com duas tintas só—claro livido, e escuro,
Só duas posições—a recta e a que inclina,
Pintou a vossa historia e o vosso viver duro!

A forma, o raio, a côr, a luz que nos fascina,
Nada são para vós, magros indifferentes,
Por que o Ceu vos desvaira e a Cruz vos allucina!

E assim mudos passaes nas Biblias reverentes…
Julgando sempre ouvir nos ceus que se descobrem,
Trovejar de repente as trombetas dos crentes.

Ó monges! ó fieis! não entendeis o homem!
Talvez a herva cresça, agora, em vossos peitos,
Pois bem, que dizeis hoje aos vermes que vos comem?

Que sonhos maus fazeis n'esses extremos leitos?
Choraes o ter gastado o tempo que nos foge,
Entre essas solidões e esses muros estreitos?!…