Surgite mortui.
(Apocalypso)
Invideo quia requiescunt.
(Palavras de Luthero no cemiterio de Wormo)
Mortos! eu vos invejo!—As frias lagens
Cobrem-vos, hoje, os corações desfeitos!…
As brancas pombas vôam n'esses leitos…
E as meigas aves gemem nas folhagens!
A Natureza enflora os vis defeitos…
Ri nas estatuas, urnas, nas imagens!..
E, ahi emfim, contentes, satisfeitos,
Vós descansais das lugubres viagens!…
Mas comtudo, no inverno, á triste Morte,
Talvez seja mais duro o vento norte!…
E vos gele inda mais os ossos nús!…
Em quanto nós—ingratos! descuidados!—
Vos deixamos chorar, abandonados,
A poeira dos mortos feita luz!
*DESPEDIDA AO SOL*
Adeus, adeus, ó Sol! grão moribundo
Tão amado dos mysticos amantes!
Vae dourando inda os ninhos e os mirantes
E os sinceiraes, o Mar, o velho mundo!
Vae! vae! ó astro lyrico! no fundo
Das aguas apagar-te!… Os teus instantes
São curtos, coração largo e profundo!
Mas da minha amargura semelhantes!
E, no entanto, astro de fogo, astro tyrano!
Se a tua chaga é funda, no Oceano
Todo o teu sangue ali podes lavar!…
Mas eu recalco, ó Sol! meu mal no seío…
Peja-me o pranto e a magoa!… e até receio
Que os ais da minha dôr vibrem no ar!