Quando, apagadas em casa as ultimas luzes, e reinando já profundo silencio ao longe por toda a cidade, cerca de meia noite, eu entrava com pé furtivo e o coração pulando, no aprazado arvoredo dos meus amores, já ali encontrava á minha espera a figura branca. Com mil beijos soffregos nos saudavamos, vingando-nos em minutos da eternidade do sol. Pedia-lhe de joelhos perdão de a ter renegado, de ter duvidado da sua existencia, durante as horas insipidamente allumiadas. Com um abraço restauravamos as pazes.
Sentava-a ao meu lado, n'um banco rustico, afoufado para ella por minha mão com mangeronas, que as havia em grande espessura á sombra da laranjeira mais alta. Reclinava ella a sua cabeça languida para cima do meu hombro, ou eu a minha face ardente sobre o seu seio, a escutar-lhe e a interrogar-lhe o coração. Repetiamos os nossos incendidos dialogos da vespera, como novos. Misturavamos lagrimas de ternura e felicidade. Reviviamos antecipados os mais bellos futuros. A qualquer tenue rumor, d'estes com que a noite, maliciosa amiga dos namorados, se diverte a assustál-os, estremeciamos como dois culpados colhidos em flagrante; ella, forcejava por fugir; eu, escondia-a, rindo, com os meus braços contra o meu peito; guardava-a ali muito tempo como filha; embalava-a, adormecia-a, inspirava-lhe com beijos os sonhos que havia de sonhar, insinuava-me n'elles, e lhe repetia em voz baixinha as mais suaves coisas d'este mundo. Se um grillo cantava então, se um ramo ciciava lá por cima, impacientava-me de que m'a acordassem. Perguntava-lhe ao ouvido pelo seu nome, pela sua familia, pela terra da sua vivenda; não respondia. Inquiria-lhe, em tom ainda mais leve, se já porventura em algum tempo outro amor lhe sobresaltára o coração; levantava-se de repente, grande, sublime, aggravada da suspeita, prestes a desaparecer[{47}] para sempre; e fal-o-hia, se ambos os meus braços a não retivessem pela cintura:—«Se eu não tivesse um coração ainda virgem, ¡como ousaria offerecer-t'o! ¡offerecer-t'o espontanea! ¡a ti! ¡ao meu poeta!»—dizia ella com uma voz que não saberia mentir por mais que fizesse. Pedia-lhe outra vez perdão, agradecendo-lhe a ineffavel certeza que me dava da minha felicidade tambem no passado; outorgava-m'o generosa; mas impunha-me, como penitencia, que lhe improvisasse poesia. Era a poesia o que a fascinára? o que a attrahira para junto de mim; e eu (¡bemditos os vinte e quatro annos!) derramava, inspirado só por ella, poesia nova e fervente, por entre aquelles troncos mudos, como as Philomelas no seu enthusiasmo a esperdiçam pelos choupaes do seu Mondego.
Como a das aves, se perdeu a minha; mas nunca a exhalei tão de dentro, nem tão para a alma, como então.
[XIX]
Agora caio eu de repente em mim, e me envergonho de tudo que tenho estado doidejando. ¿Tinha eu direito, ou necessidade, de fazer em publico similhantes confissões? ¿Não deixarei ahi violados dois pudores: um meu, outro alheio e mais que meu? ¿Haverá indulgencia que baste para devaneios tão frivolos e pueris? ¿Não me desdenharão até, como ficções inverosimeis, absurdas, impertinentes, estes idyllios elegiacos, tão verdadeiros todavia? São verdadeiros, e eu prometti historiar; eis aqui a minha unica defensa.
De mais, eu confio em que os leitores, aliás benevolos, se não esqueceram do que se ponderou no principio d'este escripto; a saber:—que, nem em bem nem em mal, se póde carregar á minha conta o que fazia ha trinta e oito annos um que tinha o nome que eu hoje tenho; e que esse nascêra e se creára, unica, simples, e exclusivamente, para poeta, poeta de amores e delicias.
Pressupposto isso, continuemos o pobre romancinho, que nunca o houve mais historico; e tornemo-nos á carta, que, tantos dias ha, espera uma resposta.[{48}]
Ignorava eu pois, e de nenhum modo podia conjecturar, d'onde procedêra, e que mão a havia escripto; mas propendia, por não sei que vaga revelação, para crêr que não era senão mulher, poetisa, enthusiasta, e muito superior ao vulgar pelo talento, quem assim me desafiava o coração, enamorando-me o espirito.
¿Reflectistes alguma vez no que seja aquelle bichinho de Deus, que pelas noites de verão está scintillando do fundo de um relvado, sua immensa floresta? Pois aquillo é uma namorada. O seu resplendor, que allumia as hervas até á enorme distancia de um palmo em redondo, é a manifestação esplendida do vago e poetico amor em que ali se consome solitaria; é uma Hero, mais sublime, chamando e attrahindo com o seu facho um individuo da sua especie, que ella nunca viu, mas que adivinha ter-lhe sido predestinado pela Natureza. Deixae-o andar a elle saltitando inconstantemente pelo labyrinto dos silvados, nas chorêas aereas e loucas dos seus eguaes, como um cardume de pequenas faiscas intermittentes; deixae-o volitar tão altivo da sua liberdade, que a energia do luzeiro lá em baixo, tão formoso e mais vivido que o seu, o arrebatará em vindo a hora, e no leito de seda de uma florinha, sob o docel de uma folha verde, o amor e o hymeneu accenderão os seus fachos áquella duplice chamma confundida n'uma só.
Tal se me affigurava a minha ingenua correspondente, irradiando d'aquelle modo até a mim, lá do interior do seu pacifico retiro, o poetico brilho dos seus affectos innocentes.