Na carta refulgia, com effeito, um amor. Era como um carbunculo, que, trazido para o escuro, continua a expedir os raios de que o impregnou o sol.
Respondi finalmente. Foi heroica a determinação; foi o salto fatal de Leucade; foi dar de cabeça para baixo na voragem, que, ou me havia de atirar arrogado e desconhecivel para cima do lodo, ou restituir-me ao dia, feliz, glorioso, coroado dos myrthos de Paphos pelas sereias.[{49}]
[XX]
Entretanto, no meio da minha allucinação vaidosa, nunca me desamparou de todo o previdente instincto da dignidade; as minhas paginas confessavam, sim, o amor; amor profundo, amor immenso; mas este amor immenso e profundo, qual eu o emprestára á Nympha aerea dos montes, qual eu proprio o tributára á deidade phantastica da Primavera, e qual mulher nenhuma deixaria de o colher com avidez, se o encontrasse, apparecia aqui como um rico fructo do paraizo, ainda pendente no ramo, já maduro, já proximo a despegar-se, baloiçando-se a um lado e a outro, indeciso para onde haveria de cahir; era, na realidade, como fôra na fabula o ramo de oiro, passaporte para os campos ditosos de além mundo, mysterioso ramo que ninguem por força, nem por fraude, esgalharia da arvore, mas que por si se deixava tomar da mão chamada pelos destinos para o haver.
Tal foi, mas em phrase chan, e sem atavios de estylo, a substancia da minha resposta: enigma contra enigma, oraculo contra oraculo.
N'este vago, de que um e outro, por motivos differentes, mas com egual cautella, evitavamos deslisar para o positivo, se foi continuando, cada vez mais frequente, mais ampla, mais amigavel, mais sincera, e mais interessante, a nossa correspondencia.
Se quem escrevia era aquillo que eu desejava, devia estar contente de mim; se era outro, e mal benevolo, o empenho que dirigia aquella penna, esquivava-lhe eu escrupulosamente os azos para triumphos. Eu por minha parte estava satisfeito de mim, e encantado com tudo quanto se me ia de novo de dia a dia descobrindo de perfeições na minha Galatéa, que, ao exemplo da de Virgilio, me atirára a maçan refugiando-se para os salgueiros; entrevia-a eu por entre as ramas; não a chegava ainda a conhecer de todo, mas differençava já com evidencia, que não era satyro travesso, mas sim nympha, namorada e negaceadora como os passaros:
..............................lasciva puella.[{50}]
Não descontinuavam, no emtanto, diligencias para se descobrir o esconderijo, em que se homisiava sempre que se presumia ir-lhe já lançar a mão á ponta do veo. Com a obstinação do mysterio, recrescia o affinco das pesquizas.
Apparece um fio no labyrinto: as minhas cartas vão por Villa do Conde para Azurara; mas ¿quem as toma em Azurara? Espia-se, colheu-se: é uma servente do proximo convento de Vairão. Está pois a caçada circumscripta a um pequeno recinto, d'onde já não ha fuga possivel para a pobre corça: agora é deixar-se tomar ás mãos rendida e envergonhada.