Parecia que eu e Maria tinhamos ouvido da propria bocca do Salvador o admiravel sermão da montanha; ¡tanto nos estava profundamente impressa dentro a sua doutrina! Eram com effeito evangelicas, ou de boa nova, estas palavras de Christo:
—«Não hajais cuidado do vosso viver, d'onde comereis, d'onde bebereis, ou d'onde vos heis-de vestir.
«Olhae-me para as avesinhas do céo; vêde lá se ellas semeiam, ou ceifam, ou encelleiram coisa alguma; quem as mantém é o vosso Pae Celeste. Pois vós sois para elle muito mais que as avesinhas do céo.
«¡Vestido!... ¿A que vem o dessocegar-se por elle? Reparae no como crescem os lyrios dos valles: não trabalham, nem fiam.
«E mais vos digo, em verdade, que o proprio Salomão nunca trajou galas como qualquer d'elles.
«Ora: se Deus assim reveste umas hervas do campo,[{52}] hoje viçosas, amanhan queimadas no forno, ¿não vos revestirá de muito melhor grado a vós, creaturas de apoucada fé?
«Portanto, nada de vos inquietardes dizendo:—¿Que havemos de comer, que havemos de beber, que havemos de vestir?
«Que se desvelem com isso os pagãos; o vosso Pae Celeste bem sabe que todas essas coisas vos são mistér.
«Não vos atormenteis pelo amanhan; o amanhan lá curará do que lhe pertence: bem bastam a cada dia as suas penas.»—
Não sei, nem nos importava saber, se Thomaz Roberto Malthus, o economista algoz dos casamentos pobres, approvaria, ou não, esta nossa fé tão commoda, e que a mesma Providencia tomou depois a si o justificar.