Se quereis verdade ainda mais em cheio, e sem disfarces, nenhum de nós ambos se lembrava de pensar no futuro por esse lado; entre nós e o porvir material, mettia-se uma seve de affectos tão espessa, tão alta, e tão florída, que não nol-o deixava perceber. Era como o pinhal a cortinar o Oceano revolto de ante a vista do conventinho descançado.
Olhae que eu não vos prégo ó sermão da montanha para que nos imiteis, mancebos e donzellas na febre aguda do amor, vós para quem uma cabana, uma fontinha, quatro raizes do monte, e para postre amoras de silva, e as glandes do filho prodigo assadas n'uma fogueirinha de gravetos, se figuram banquete em palacio, sobrando-lhe para salsas o bemquerer; não, Robinsons do affecto e da adolescencia descuidosa e credula; o que só faço é relatar-vos, sem apologias nem recommendações, o que por nós passou n'uns tempos de loucura, que (¡ainda mal!) não podem já voltar. Lêde muito nas boas horas, como nós a reliamos, a consolativa prégação dos passarinhos e dos lyrios; mas, se vos parecer, não deixeis de folhear tambem um poucochinho os economistas; não será mau. Os corvos da Thebaida acudiam, verdade seja, aos santos eremitas á hora do jantar com pães tomados sabe Deus d'onde; mas não ha muitos d'esses hoje em dia, cá pelas cidades. Corvos que vos empolguem o vosso pão da mesa, e até da mão, isso mais depressa.[{53}]
[XXIII]
Maria conhecia-me pelos meus livros e pelas minhas cartas; alguma coisa era; mas os meus escrupulos melindrosos pediam mais: enviei-lhe o meu retrato, uma expressiva miniatura em marfim. A mão engenhosa do pintor, não paga de me reproduzir, enchera de um rosal florescente o fundo do seu painelinho; era o poeta da Primavera, rodeado dos seus preteritos amores. Guardo-o como preciosidade e reliquia; ¡se andou tanto tempo occulto no seio com que eu sonhava!... A carta em que ella me agradecia este pequeno penhor, repoisa, outra reliquia, no mesmo cofre junto d'elle; seria profanação o publicál-a. Fique ali a sonhar eternamente a immensa ternura de que a repassou a melhor, a mais carinhosa mão de quantas jamais pegaram na penna para revelar a uma alma a formosura de outra.
É a este segundo periodo das nossas relações, começado ao desfazer-se a nuvem da divindade, deixando apparecer a mais sympathica das mulheres, que pertence inteiro o livro sobre que emprehendi derramar agora alguma luz.
[XXIV]
Lêstes sem duvida a historia de Pygmalião; então sabeis como aquelle phantasioso escultor, com a arte no coração, e a fé na alma, lavrou uma estatua, se ennamorou e endoideceu por ella.
O sol da Grecia, que tantos portentos allumiou, nunca vira coisa assim formosa.
O Real estatuario, pois era Soberano, esqueceu por ella mais que o seu throno de oiro, e os seus estados que o adoravam; esqueceu todas as beldades de umas regiões como aquellas, digno berço de Venus e das Graças, e onde os lacteos marmores e as ceras coloradas, para copiarem aos olhos as formosas do Olympo, e povoarem os templos com Hebes e Junos, Dianas e Minervas, de mais não precisavam que retratar os bandos vivos e buliçosos das filhas da terra. A todas offuscava para elle, para[{54}] elle Jupiter do cinzel, a Pallas brotada da sua cabeça poetica e fogosa; assim a lua cheia, ao levantar-se de traz dos cumes selvaticos dos Dáctyles, desterra o scintillante cardume das estrellas.
Não contente de a vêr todo o dia, vinte vezes se levantava cada noite para tornar a vêl-a, e de cada vez lhe descobria gentilezas novas. Com a alampada trémula na mão, erguendo-a, abaixando-a, ora de longe, ora de perto, a rodeava, scismando, palpitando, sorrindo, figurando-se-lhe vêl-a corresponder com a expressão do aspecto ás blandicias com que elle, mais poeta que Anacreonte, a affagava. ¡Oh! ¡que não daria elle por ter a lyra de Orpheu e de Amphião, cujos sons escutados pelas pedras as animavam!