Emquanto o veo alvacento do innebriante fumo, elevando-se d'ante o pedestal da nympha, a envolvia toda, e tornava a sua presença mais celestial, Pygmalião, acompanhando-se com a lyra de sete cordas, cantava de joelhos um hymno, que as pombas escutavam n'um silencio religioso; pareciam querer decorál-o para o repetirem á sua rainha, quando ella se jazesse em amoroso ocio, reclinada sobre as violetas em algum secreto pavilhão de rosaes da sua Paphos:

—Tu que exhalas de ti, qual vérte a rosa aromas,
effluvios de prazer, universal ternura,
Mãe das Graças e Amor, deusa da formosura,
que envolves a nudez co'o veo das aureas comas,
Venus; pois que são teus os ceos, a terra, os mares,
e até ás sombras do Orço abrange o teu poder,
lança um propício olhar, Venus, aos meus pezares;
do teu jugo me solta, ou dá-me emfim morrer.
Com tão cruel supplicio, ignoto á humanidade,
ria teu filho em vão, tu, deusa, és mais piedosa.
Ardo por uma pedra em chamma vergonhosa,
perdi a paz e a gloria, o siso e a liberdade.
Qualquer ente alardeia ufano os seus amores:
a ave, piando; o peixe, aos pulos pelo mar;
o rebanho, mugindo; em cantos os pastores;
e eu, Venus, só a ti ouso este ardor mostrar.
¡Quão menos insensato o moço do Cephyso
se finou por si mesmo ao pé do espelho aquoso!
Suppoz a sombra nympha; espera ser ditoso;
cai no engano; perece; apiadas-te, é Narciso.
E eu, eu sei que a beldade, iman d'est'alma ardente,
só a mim deve o ser; nasceu de minha mão;[{58}]
não me ouve, não me vê, não se condoe, não sente;
não lhe pude formar lá dentro um coração.
¡Ó Venus! se ha mulher que eu possa crer retrato
do immenso que sonhei compondo a Galatéa,
revela-me onde habita a amavel Semidéa;
assim teu filho Amor jamais te offenda ingrato.
Seja embora pastora, obscura, humilde, escrava;
terá por choça um throno, e por captivo um Rei;
e eu, já salvo da insania, eu, que a teus pés chorava,
a ti uma hecatomba alegre immolarei.»—

Ainda bem não findára a prece, quando lhe pareceu notar nos labios da Immortal um sorriso auspicioso. O Cupido, que junto d'ella estava em pé, e que era tambem obra de suas mãos, agitou as azas de marmore, soprou as labaredas petrificadas do facho, que instantaneamente coruscaram, e rompendo por entre a cortina do incenso, que ainda envolvia a nympha, lhe lustrou com o milagroso calor a fronte, os olhos, as faces, a bocca, o seio, o coração. Ao fogo d'este segundo e divino Prometheu, a estatua estremece; a pallida brancura se tinge da côr da vida; o peito palpita; os olhos se voltam para o céo da Grecia, que logo os embebe do seu mais brilhante azul; baixam sobre Venus; ¡parecem attonitos! descem; ¡encontram-se com os de Pygmalião! duas rosas subitas se abrem nas faces; o sorriso, aurora de uma existencia de amores, alvorece em labios nacarados.

—«¡Filha dos meus sonhos!» «¡Galatéa!—» exclama o artista delirante, correndo a tomál-a em braços, ao vel-a descer do pedestal. «Galatéa, ¡filha dos meus sonhos! ¡se é esta uma nova illusão que Morpheu me envia, compassivo, mas cruel, possa eu não acordar jámais!»

¿Vistes vós alguma vez rasgar um dia magnifico depois de uma noite profunda? ¿Notastes como então sahiam do nada as amenidades das terras e dos rios, a animação e o movimento dos campos e das cidades, as côres, os cantares e as esperanças? assim, repassada a subitas de calor e luz pelo sol dos espiritos, pelo amor, a alma recemnascida de Galatéa adivinhou para logo a adoração de que era alvo. Comprehendeu a turbação que inspirava, pela que[{59}] sentia. Viu nas profundezas interiores do seu ser, diaphanas como um lago limpido, a sua pureza virginal, a sua magica-branca, a sua suavidade irresistivel, o seu destino de ser feliz felicitando.

A turbação instinctiva de um pudor que a si proprio se ignorava, cobriu o rosto de Galatéa do mais amavel escarlata; abaixou a vista sobre si mesma, e não sabendo para onde se refugiar, mariposa attrahida da luz, voou para os braços do amante, escondendo o seio no peito d'elle, fechando os olhos para não ser vista.

N'este momento a Philoméla, occulta na folhagem de um platano visinho, entoou um brilhante epithalamio, e o hymeneu fechou as cortinas purpureas do aposento.

[XXV]

Despidos os accessorios esplendidos e sobrenaturaes, a fabula de Pygmalião reproduziu-se na minha historia; o simulacro que eu incensára e servira, o simulacro filho da minha imaginação, era emfim mulher; mulher amante, capaz de bemaventurar-me, e desejosa de o fazer. Só a Philoméla do platano, e o hymeneu, andavam ainda tão longe e tão emboscados nas brenhas do futuro, que eu mesmo não ousava crer-lhes bem deveras na existencia.

Entretanto, como a encarnação e os sentimentos do meu idolo para commigo eram innegaveis, começou logo a haver entre nós uma especie de semi-consorcio tacito; era já a communidade dos corações, se não era ainda a dos somnos, visto que o bom Ducis, chamou ao casamento