Douce communauté de cœurs et de sommeils.

As nossas mutuas confidencias passaram a ser, por minha parte, o que por parte d'ella desde o principio tinham sido: reservadas inteiramente de ouvidos extranhos e curiosos. Com isso lucraram muito maior affoiteza, e um novo encanto, que nos concitou a ampliál-as de dia a dia.

Quanto é dado a ausentes conhecerem-se, conhecemo-nos. Pelas mutuas e circumstanciadas descripções[{60}] que trocámos das nossas vivendas, dos nossos gostos, do emprego das nossas horas, e de todos os nossos pensamentos, podemos, como sylpho e sylphide, visitar-nos de continuo. Estavamos simultaneamente: eu junto d'ella, no seu mosteiro; ella commigo, no meu castello. Já não havia lá nem cá, ladrilho de pavimento, nem abobada, accidentes de luz ou sombra, movel ou planta, que nos não fosse familiar. Via ella gostosa ao meu lado, o irmão inseparavel que me excitava a querer-lhe, a amál-a, com a mesma espontaneidade com que me acompanhava nas outras excursões poeticas; eu, achava ao pé d'ella a Religiosa sua intima, que a vira crescer, que a estremecia como a filha e irman, que a ajudava com os seus conselhos, a protegia como Anjo da guarda, se revia na sua bondade e no seu talento, e que, apesar de não saber como viveria se a perdesse, nem por isso apressava menos com os seus votos o momento de m'a entregar.

Assim mesmo, ¡grande era na verdade a minha solidão! mas tenho que a de Maria era ainda mais profunda, poetica, e enamorada.

Ha uma natural propensão que nos leva sempre o desejo do que possuimos, para o que não temos, para o que muitas vezes não poderemos alcançar; a imagem de um ermo attrai o mundano; a do mundo dessocega ao eremita. São palpitações e adejos da alma captiva para o ideal. Somos assim. Se o não fôramos, ¿onde estariam os horizontes luminosos da alma? ¿Onde, como, e de quê, podéra crear-se poesia?

Eu, que tinha em redor de mim uma cidade, e a liberdade de me expandir para toda a parte, punha as minhas mais cordeaes delicias em me ir encerrar não pressentido, nem presumivel, n'aquella remota clausura. Maria, costumada a ella, sem quasi conhecer outra coisa, e devendo estremecer só ao pensamento de trocar o seu pacifico viveiro pelas extranhezas e perigos do ar pleno e sem limites, Maria, compunha agora lá os seus melhores devaneios no phantasiar outro viver, outro sentir, outros deleites, e de todos os deleites o maior, dizia ella, o de gastar a sua existencia em amenisar outra; ambição verdadeiramente feminil: ¡a abnegação absoluta!

Se viessem no futuro a citál-a como a socia, a[{61}] guia, a auxiliar, a afinadora da lyra do poeta, e a serva ministra das suas festas, seria isso para ella um triumpho (mil vezes m'o repetiu). Mas, embora o seu nome viesse a esquecer de todo (acrescentava com uma effuzão de ternura encantadora), a certeza de haver obscuramente cumprido todo esse encargo, já lhe bastava para não trocar a sua dita pela de outra alguma.

[XXVI]

As abobadas de um claustro encobrem thesoiros de sensibilidade inapreciaveis, inexhauriveis, e bem mal avaliados dos profanos.

Cada um considera aquelles encerros mysticos á luz dos seus proprios preconceitos. Um espiritual, vê ali um alfobre de plantas para o Céo; uma terra de Gessen allumiada de cima pelo sol, no meio de um Egypto ennoitecido; um paraizo passageiro sotoposto ao Paraiso perennal, com a mais curta e directa serventia de um para outro. Ao incredulo, figura-se um pantano antigo de fanatismo e superstições. Um economista, lhe chama desperdicio anachronico de riquezas, de forças productivas, e de população. Um naturalista, execra, em nome da Natureza, que se ousem e se permittam votos de a renunciar; e, propheta de infortunio, commina, em nome d'ella, como infalliveis penas do desacato, as tristezas, as enfermidades moraes e physicas, as allucinações, os delirios, o definhamento, o envelhecimento no incompleto dos annos, a morte prematura. Finalmente, um romancista licencioso sonha, e se arroja a escrever os seus sonhos como historia, que o amor, bannido em vão d'aquelles recintos, em parte nenhuma é tão despota, tão insensato e monstruoso como lá. Segundo esses moralistas de abominação, os mysterios vergonhosos da deusa Bona, ter-se-hiam perpetuado ao abrigo e no seguro inviolavel dos nossos asylos religiosos.